apercebo-me de que com a idade passei a usar clichés a uma velocidade impressionante.

Saiem-me, soltam-se-me dos lábios sem que eu tenha qualquer tipo de controlo sobre eles.

apercebo-me também de que falo de Deus. Trago Deus para os meus discursos. Justifico eventos com a vontade de Deus e por vezes, não é para efeito poético. Por vezes efectivamente acredito naquilo.

Acho que à medida que o tempo corre e os anos passam e depois de termos acumulado um conjunto de experiências razoaveis, há coisas para as quais por muito que tentemos não conseguimos encontrar uma justificação plausível para a sua existência. É suposto conseguirmos incutir logica e racionalidade ao que nos acontece mas por vezes ela escapa-nos e por muitos anos que passem e por diversas que sejam as diferentes posições em que nos coloquemos para olhar para as coisas de um ângulo diferente, continuamos a não lhe encontrar um sentido.

Acho que na minha idade, quando trazemos Deus para a boca, materializamos uma realidade; a realidade de que há coisas de que desistimos, há esforços a que deixámos de dar importância, há eventos que relativizámos, não os reprimimos, não os recalcámos, optámos por deixar de os tentar entender, de lhes dar um sentido. E nesse momento Deus entra em nós. Porque está ali um vazio. Apenas por isso, porque não ha mais nada para pôr ali.

Mas por momentos sentimo-nos em comunhão com qualquer coisa e por uma fracção de segundos somos uma pessoa diferente. Fomos tocados, sentimos que de nós emana um certo brilho.

Depois olhamos para o espelho e sentimo-nos ridiculos…

carla carmen and louie

Hoje recebi esta foto. A menina da direita sou eu. A menina da esquerda é a minha prima Carmen que entretanto cresceu e o menino do meio é o nosso terceiro primo Louie que cresceu também e se tornou um adulto triste. Estamos nos Estados Unidos num casamento que entretanto descresceu e temos na mão um cesto de flores. Lembro-me que achei as flores lindas, que adorei as que me puseram no cabelo e que fiquei triste por não ter uma echarpe como a da minha prima, mas o pano não chegou! Era tudo rosa e brilhante. Eram os anos 70 e os Pink Floyd cantavam The Wall.

carlota

A menina aqui de cima sou eu agora. Redondita! A Carmen cresceu e teve uma filha. Eu também. Ambas as tivemos sem precisar de um marido e sem o termos combinado ou discutido, porque a distância não nos permitiu desenvolver esse tipo de laço. Mas sem sabermos e por trajectos diferentes acabámos as duas com duas miúdas extraordinárias nas nossas vidas.

Hoje a Carmen é uma amiga preciosa. E as adultas que somos aproximaram-se e desenvolveram um amor imenso pela filha uma da outra como se tivessemos crescido juntas, como se eu a tivesse visto nascer.

O mesmo não se passa com a senhora abaixo

Maputo-20121227-07043

A senhora acima fez-me escrever sobre ela e é suposto eu dizer que é M A R A V I L H O S A.

Confesso que com o tempo ela desenvolveu uma certa generosidade. Lá vai arranjando uns portadores e de África chegam-me coisas à Asia que me deixam muito contente. No ultimo ano, no entanto, a coisa tem estado parada. Que eu não lhe mando nada, diz ela. Queixa-se. Quase que a sinto a gemer. E isto entristece-me porque cresci a aprender que a mão direita não deve saber o que a mão esquerda dá.

Mas o facto é que a senhora ali de cima, a Pepé, não é prima, não crescemos juntas, cruzámo-nos profissionalmente no remoto 1998 e penso que ela assim que me viu ficou irremediavelmente cativada. De forma a que eu me apercebesse e por certo apenas com o intuito de chamar a minha atenção, fez-me pagar-lhe cafés numa base diária durante anos (na verdade não eram apenas cafés mas a minha mãe lê este blog – havia alcool, ela consumia alcool!), segurar-lhe a mão enquanto era tatuada – não no sentido de lhe dar força mas simplesmente para não a deixar chegar ao tabaco, segui-la nas lojas para voltar a pendurar os items que ela ía espalhando (saldos em lojas terriveis onde em varias situações praticamente a salvei de caixotes com pilhas de roupa em promoção puxando-a pelas pernas antes de ela ser engolida mas ainda assim permitindo-lhe apanhar a ultima blusinha estilo star trek na melhor fibra sintética). Esta é a pessoa que levava o seu cão de visita a minha casa aproveitando para treinar as suas rotinas de higiene e reclamando de eu lhe dar o Publico e não o Expresso, com paginas relativamente maiores, para lhe aparar o xixi. O xixi escorria na minha sala de estar provando a inclinição do soalho polido, brilhante, recém restaurado. Refiro-me claro, ao xixi do cão (descansa em paz Bubinha!)Esta é a pessoa que não deu o meu nome a nenhum dos filhos usando o facto de eles serem rapazes como desculpa apesar de eu ter limpo o xixi do cão dela, lhe ter pago os cafés, apanhado as roupas, e lhe ter enviado coleiras de marujo para todos os animais domesticos em Moçambique pondo-os quase tão  bonitos como os miudos Von Tramp.

apesar de tudo Pepé, pronto toma lá, sinto a tua falta. Estou certa de que 1h contigo me faria ter saudades da distância, mas ainda assim, e apesar das sessões diarias de skype que nos impedem de produzir trabalho e eventualmente subir na vida., sinto a tua falta.

Um dia faremos plásticas juntas e não nos riremos disto por causa dos pontos.

beijo

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2013 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

A San Francisco cable car holds 60 people. This blog was viewed about 800 times in 2013. If it were a cable car, it would take about 13 trips to carry that many people.

Click here to see the complete report.

de Natal...

DSC03329às vezes venho ver o blog. Leio os ultimos textos e acho-os embaraçosamente ridiculos. Por vezes olho para as estatisticas e os números são pequeninos pequeninos…até faz pena!

É tudo tão relativo e frágil.

Este blog e o Blogui já foram tão importantes na minha vida e representavam uma parte tão significativa dos meus dias. Fiz amigos através dele. Amizades daquelas que não se querem perder e em que se sente a sorte de nos termos cruzado com estas pessoas. Através do blog pessoas conheceram outras pessoas e estabeleceram não só relações de amizade, mas também relacões de uma solidariedade incrivel.

Não escrevo aqui há um ano. E todas as entradas que leio são de um vazio de conteúdo que me faz questionar se não serão simplesmente um reflexo de mim e daquilo em que me transformei.

A vida muda-nos, não é? Ou as circunstâncias. As nossas circunstâncias. Há momentos em que sentimos que o que estamos a viver não deve ser partilhado. Quando o que vivemos envolve outros, por exemplo. E é tão marcado pela presença de outros que não podemos relatar os nossos dias sem os incluirmos, mas sentimos que não temos o direito de os expôr. Como o meu casamento, por exemplo. O Gonçalo é discreto. Não fala de si aos outros. Falar de nós aqui seria uma espécie de traição à forma dele estar na vida. E a Gui cresceu e tem o seu pequeno blog e o direito de escolher o que quer e não quer que seja partilhado. Mas curiosamente, e porque o Blog tinha um papel tão significativo na minha vida, ambos estranham não fazerem parte dele. O Blogui acompanhou uma Gui pequenina, o The Great Craft Disaster uma Gui a quem a mãe tentava fazer coisas. É um registo do processo de crescimento dela que eu poderia ter feito discretamente em casa num Álbum, num Diário, mas que por várias razões fiz aqui. Há um pedaço da vida dela que falta – 4 anos. Os últimos 4 anos, que foram vividos a 3 e não a 2.

Nestes 4 anos crescemos como familia e aprendemos a respeitar e a valorizar os espaços de cada um. Este é o meu espaço e é um espaço que me faz falta. Não faz falta todos os dias. Talvez não faça falta sequer todas as semanas. Mas faz falta quando faz falta e isso é o suficiente.

Quando fizer falta, virei cá…

natal

O Natal passou devagar, com tempo, com tudo feito a horas, com um menu que se torna lentamente tradição; pato lacado.

não se respeita a hora e abrem-se os presentes.

surpreendentemente conseguimos nos surpreender com as surpresas que encontramos escondidas nas lojas de Dili e que prontamente levamos para casa.

Na véspera vimos  “Life of Pi”a 3D, no novo cinema, em Dili…

eu disse a 3 D no novo cinema em Dili.

sim, em Dili!

Feliz Natal! Não sei bem a quem desejo isto porque ninguém conhece o novo url do blog. Mas ainda assim, Feliz Natal e paz na Terra mesmo aos Homens de má vontade.

3 D no novo cinema em Dili! 3D!

No período em que fazia activamente ursos, não trabalhava.

O primeiro urso que fiz com o tecido de uma saia de pêlo comprada num momento pouco inspirado deu-me um especial prazer. É o urso da minha filha e ela como boa menina que é fingiu durante algum tempo gostar muito muito dele!

Os ursos nunca me deram especial gosto a fazer porque não são fáceis. Requerem imenso trabalho e atenção e quando estão a ser montados, magoam imenso os dedos.

Esta semana voltei a fazer um para oferecer ao filho de uma amiga que fazia um ano. Apenas porque queria que ela percebesse que a data era compreendida como importante para nós. Estranhamente, as tarefas morosas deram-me um prazer enorme. O desafio de encontrar materiais básicos alternativos numa terra onde não há nada e o que há nao tem qualidade, transformaram por completo o processo. E assim foi feito um urso para o pequeno Kaito. E mais se seguirão sem que eu tenha a minima ideia do que vá fazer com eles. Mas ao fim de uma série de anos finalmente, e apesar de continuar a furar dedos ao montá-los, sinto uma enorme paz ao cortar e coser e picar-me. E sentia falta disso.

A pequena Tia apareceu nas nossas vidas no Sábado de Aleluia depois de um descuido meu em que mencionei ao veterinário local que gostariamos de ter um gatinho muito pequenino para o cão ter oportunidade de se habituar a ele e vice-versa. Nessa tarde recebemos um telefonema de um Hotel local a pedir para irmos escolher um bichinho ao parque de estacionamento. Depois de dois dias de Gui a dar instruçoes à amiga para se rebolar debaixo dos carros estacionados enquanto ela dava as ordens, o bichinho foi apanhado e trazido para casa enrolado num plastico.

Ao ser lavado descobrimos que era branco.

Come e come e come e rebola-se aos nossos pés para ser coçado na barriga. É menina e chama-se Tia. 4 meses passados continuamos a ficar eprdidos a olhar para o bicho e as posiçoes irreais em que dorme. Esta coisinha pequena é profundamente meiga e sem que ninguem desse conta, conquistou um lugar, ocupou um espaço. Por vezes esquecemo-nos que estas coisas acontecem. Alguem entra nas nossas vidas, seja bicho seja gente, e toma-nos conta do coração e não temos uma palavra a dizer durante o processo porque quando damos conta a coisa está feita!

Seja bicho, seja gente.

E por isso a vida vale a pena.

Quando via as imagens do massacre de santa cruz nunca imaginei que um dia passaria por lá diariamente queixando-me do trânsito.

Por vezes o tempo relativiza o drama e esvazia as coisas da sua memória

Santa Cruz é um atalho para quem quer chegar a Bemori sem a atrapalhação do trânsito de Audian

Uma vez por ano Santa Cruz recupera o seu estatuto de simbolo de resistência e opressão.

Uma vez por ano não há alternativa ao trânsito de Audian.

quando se coloca uma criança numa escola australiana, sabe-se que para alem da total falta de maneiras se vão herdar uma serie de tradiçoes alimentares muito pouco saudáveis.

com a língua vem uma linguagem corporal de uma coolness pouco recomendada para quem queira viver alegremente neste lar- as correcções aumentaram cerca de 90% desde que a criança se escolariza no meio down under.

a par disso há uma saudavel interacção com a comunidade que se traduz num conjunto de iniciativas para angariação de fundos para isto e para aquilo, sendo isto e aquilo o projecto de pre-school dos miudos que vivem no bairro da escola, a biblioteca de uma outra escola nao sei bem onde porque não sou uma mae disponivel, e mais duas ou três actividades para salvar qualquer coisa muito importante.

esta angariação de fundos é feita com a venda de coisas e as coisas são regra geral coisas de comer. assim temos ice cups a meio da manhã mas é importante contribuir porque vai ajudar os pobres e temos queques disto e daquilo para comprar porque também vai ajudar imenso os pobres e mais isto e aquilo muito doce que também vai ajudar os pobres. no fundo, a felicidade de uma série de crianças e a economia de outras tantas depende dos níveis de consumo de açucar da minha filha. e eu lá vou aceitando porque nesta familia gosta-se muito de pobres; de tal forma que na realidade se eles nao existessem ninguem neste núcleo familiar teria emprego, o que não deixa de ser uma reprovavel ironia.

mas a verdade é que esta criança pouco habituada a doces, vê-se subitamente exposta a esta nova realidade podendo fundamentar a sua adesão à nova dieta numa acção de puro altruismo. doar directamente o dinheiro privando-a do tremendo sacrificio de comprar doces numa base diária seria boicotar um sistema caloricamente construido numa perspectiva didactica.

assim, temos agora em casa uma miuda que gosta de doces, que não é amiga da fruta e que usa adjectivos que eu desconhecia, em estrangeiro, para qualificar os broculos. porque comer vegetais não é cool! e se levas um packed lunch, nada deverá ter um tom verde caso não queiras ser um social reject.

por aqui estamos definitivamente nas tintas para o processo de aceitação social da criança no grupo com base na dieta alimentar. estamos portanto “in paints”!

apesar da criança na maioria das vezes comer na cantina da escola, a coisa não melhora. e nào melhora porque o rebento estuda num local onde a cantina se resume a duas senhoras representantes de dois restaurantes, que vão todas as manhãs munidas de um menu com fotos, recolher os pedidos para almoço de cada criança. na hora respectiva, os meninos encontram na mesa no jardim uma caixinha com o nome deles e o prato que pediram. as escolhas da minha filha alternam invariavelmente entre os pratos filipinos e os tailandeses com excepção da sexta feira, em que o senhor das pizzas também aparece por lá.

o ser nova numa escola onde não dominava a língua e tudo e todos eram estranhos, fez-nos ser permissivos e aceitar rotinas e hábitos absolutamente fora da norma de casa. Um ano depois e passado o período de adaptação, chegou o momento de recuar e reeducar os habitos e maneirismos da criança. depois do cold turkey das férias grandes (que aqui o ano escolar é mais ou menos ao contrário e começamos com as aulas a 26 de Janeiro), vem o fim de semana de negociação de menus escolares. 3 dias de almoço levado de casa alternados com 2 dias de almoço na escola. um ice cup por semana. muitos verdes e vermelhos na comida e refeições preparadas por ela própria na vespera antes de se ir deitar.

Por agora, e para recuperar o vício da fruta, recortamos com os moldes das bolachas pedaços para o pequeno almoço.

As aparas ficam para a mãe…

 

 celebramos ao contrário o aniversário; ao acordar, uma massagem, dormimos à hora de almoço, tomamos o pequeno almoço à hora de jantar.

um dia de pernas para o ar, a celebrar a vida do homem que rejeita a normalidade, que abraça o absurdo, que respira criatividade, que vive de acordo com regras que escapam à sensibilidade da gente comum que se cruza com ele, que chora escondido a ver filmes, e  não sabe lidar com o quotidiano,.

Parabéns, Gonçalo!

estamos muito contentes!

mas mesmo muito muito contentes!

o novo ano começou com um frigorifico morto e uma tentativa de assalto à casa.

recebemos estes contratempos de coração aberto porque são manifestações do divino!

 Não há prova maior da existência de Deus do que vê-lo em plena acção a castigar cordeiros pecadores que iniciam o ano a rirem-se dos que o tentavam celebrar ao ar livre sendo apanhados pela chuva.

Senhor, aceitamos humildemente a lição. Agradecíamos igual aplicação ae Vossa parte na disciplina da empregada que se demitiu e ficou com a nossa chave de casa coincidindo isso com a tentativa de assalto.

Senhor, ela é Protestante.

A noite de fim de ano foi passada em casa. Na cozinha.

Sacrificaram-se lagostas. Grandes e agressivas apesar de mortas. Nas pontas dos meus dedos ficaram marcados em memória, os piquinhos de cada uma. Morreram com dignidade.

Nesta casa faz-se extensiva pesquisa antes de preparar um prato. Aquando da confecção, todas as receitas são devidamente ignoradas.

Da cozinha gostamos dos odores que se vão libertando, do som da faca a tocar ritmicamente a madeira, dos minutos de pausa em frente à ventoinha, dos cães muito silenciosamente sentados seguindo cada movimento, da música lá ao fundo, dos foguetes dos vizinhos, das tekis quietas na parede e detestamos a louça por lavar. Ou melhor, detestamos lavá-la.

A miuda cá de casa experimentou champanhe pela primeira vez. Assim só um bocadinho. E lamentavelmente gostou. A miuda cá de casa ofereceu-se para terminar a bebida dos outros. Consta que a avó da miuda costumava em pequena, às escondidas, terminar o fundinho do copo dos convidados da casa.  Hoje em dia diz que o alcool lhe dá alergia… tecnicas para esconder um passado pouco católico!

Minutos após a meia noite, chove torrencialmente. Daquelas chuvas de gotas grossas e rápidas. E a nossa casa no cimo de Vila Verde foi como sempre das primeiras a senti-la. De volta à sala vindos do jardim inundado, ocorre-nos subitamente  que na televisão se transmite a festa organizada pelo Governo em frente ao Palácio e ligamos o aparelho na esperança de que a chuva ainda lá não tenha chegado. Esta esperança não foi motivada pela preocupação. Esta esperança foi motivada pelo desejo de termos a oportunidade de ver a chuva a chegar e as pessoas a correr a fugir, assim em directo na tv.

E Deus na sua imensa bondade, fez-nos esperar 3 a 4 minutos mas concedeu-nos essa Graça.

Estamos prontos!

Quer dizer, não estamos mas não pensamos muito nisso.

A ceia está “organizada” – Um Pato de Pequim inteirinho que os chineses aqui ao lado do escritório irão cozinhar para nós. Portanto, tirando isso nada mais foi feito. Mas agora basta elaborar em torno do tema principal. Este é definitivamente um Natal Chinês!

Nós todos ali em cima na foto desejamo-vos um Feliz Natal. Quer dizer, na realidade só eu é que vos desejo Feliz Natal porque nenhum dos outros 4 terá grande paciência para essas coisas. Tirando a Gui, que nos seus 9 anos em plena puberdade precoce e depois de ter pedido ajuda para depilar o “rabo das pernas” (!!!!), suspirou e informou-me que prefere oficialmente ser ainda conhecida como “a person who believes in Santa”. Admiro o pragmatismo da minha filha e admiro também a forma como recorre ao Inglês quando o tema é mais emocional!

Desejo aos dois leitores deste blog um Feliz Feliz Natal! Feliz Feliz Natal! Tenho fortes suspeitas de que este será um dos meus melhores Natais de sempre! :-)

 

por muito que se sonhe com um Natal tropical, longe da chuva e do frio do Dezembro Europeu, a verdade é que vivê-lo entre a praia e o ar condicionado a 16 graus na sala, num esforço tremendo para baixar a temperatura, não é agradável.

As bolachas de gengibre sabem melhor com chá quente. Fazer biscoitos é um desprazer por causa do calor do forno. Decorar bolachas é uma impossibilidade porque tudo derreterá com  calor. Nas janelas da sala estão pateticamente penduradas as meias de Natal. Quentinhas, com bonecos de neve e temas de inverno. Chinesas. Ao lado as botas da tia Jana. Personalizadas. A um canto um pinheiro verde vivo de plastico. Chinês. Decorado com bolas todas elas muito vintage e muito plasticas. Chinesas. E curiosamente gera-se uma certa harmonia e a coisa resulta. E o Natal entra pela sala e agarramo-no a ele. Longe de tudo o que se tornou a nossa tradição. Longe das pessoas que o formam e lhe dão consistência.

E criamos assim uma atmosfera artificial a uma temperatura artificial e esforçamo-nos para que no meio da saudade e do vazio que a ausência de gente querida nos deixa, se crie um espaço que deixe memórias das que vale a pena recordar.

Encontrei num momento de tédio e internet disponivel, um blog Americano de uma mulher.

Bonita. Meia loura, meia ruiva, cabelos compridos sempre impecáveis, magra, 3 filhos, um marido que acaba de ser feito partner numa firma de advogados. Sorri da mesma forma em todas as fotos. Aquele sorriso que só as Americanas têm; muito aberto, mostrando os dentes todos, perfeito.

As crianças têm os olhos azuis. São duas meninas e um rapaz bebé que sorri em todas as fotos. Também ele muito Americano e aberto, mostrando os dentes todos, incluindo o que partiu ao cair na semana passada.

Fui saltando de post para post sem conseguir parar e sem conseguir definir se estava a gostar ou não.

Fui ao histórico.

Vi as decorações de Natal dos vários anos. A perfeiçao da combinação de cores e as instruçoes detalhadas de como o fazer. Os preços, as lojas onde encontrar os produtos. Vermelhos e verdes apenas. E branco, claro. Tudo pronto a usar.

Vi os fatos da Noite das Bruxas, as festas do bairro nas ocasiões festivas, a piscina da casa nova da mãe. A arrumação do pantry, as filas e filas de comida enlatada e congelada – porque ela nao cozinha.

O marido alto que engordou no primeiro ano de casado e que ao longo dos postais de Natal se foi vendo recuperando a forma até ficar mais musculado do que nos tempos de liceu.

A festa no escritório quando se tornou partner, a foto com o senior partner e a familia.

A Igreja Mormon que frequentam.

As sextas feiras que ela dedica a um post sobre fashion e vai-se fotogrando no espelho da casa de banho com as diferentes combinações de peças discretas acentuadas aqui e ali por um cinto.

As meninas em rosa, o quarto em branco e rosa, a procura de uma casa nova, a arrumação das gavetas, a arrumação dos armários, a arrumação, a arrumação. O exercício.

Os encontros com amigas, as conferências sobre Parenting.

As receitas de doces para as festas da escola e oferta a professores e amigos feitos à base de M&M’s e outras guloseimas de saco, empilhadas e levadas ao forno ate derreterem e se fundirem.

Mais fotos de familia,

Mais fotografos profissionais a organizarem o postal de Natal.

E numa base diária vou lá – numa espécie de voyeurismo provinciano – espreitar a vida da senhora!

Mais ou menos surpreendida com o facto de  não conseguir perceber se acho tudo aquilo tão absurdamente ridiculo, tão à letra do que deve ser a vida de uma mulher de classe média em ascensão na América, tão distante do que eu conseguiria aceitar como uma possibilidade de realidade para mim e simultaneamente tão confortável. Uma vida calendarizada,  em que os eventos se sucedem e repetem com a mesma cadência das estações do ano, em que na realidade as estações do ano fazem parte da definição do calendário.

E pergunto-me como é possivel viver assim sem acordar um dia pela manhã atacando os  proprios pulsos à dentada.

E depois percebo.

E consigo ver a felicidade da senhora. E o equilibrio da familia. E a importância do postal de Natal. E percebo que vou lá porque acho tudo aquilo enternecedor; os namorados de Liceu que controem um projecto de vida em comum, à semelhança dos pais, dando continuidade à realidade que conheceram. E percebo também que a adoptei a senhora sem que ela saiba. E que como qualquer mãe preocupada, visito-a diariamente com um receio terrivel de que toda aquela realidade tão cuidadosa e amorosamente construida, possa lá não estar no dia seguinte. Porque basta o marido não querer.

E fecho o separador sabendo que penso todas as estas coisas porque me sinto arrogantemente crescida.

E há um conforto enorme, mesclado de presunção, ao perceber que um dia acordamos e realizamos que já retirámos da vida um conjunto de experiências e informações que nos permitem rejeitar sem ter que pensar muito no assunto, uma série de sistemas e atitudes, valores e contravalores. E que por vezes nos podemos definir não necessariamente por aquilo que exarcebadamente defendemos, mas simplesmente pelo que rejeitamos.

E que viver à luz do “não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí” é uma filosofia tão legitima como outra qualquer, mas que na realidade, surpreendentement exige uma constante análise e reflexão que se faz intuitivamente.
E será essa busca que definirá o meu percurso.

A dois!

a minha filha aprendeu 3 acordes na viola e finalmente decorou-os.

ontem compôs uma música e fez uma letra.

a música fala do cão.

não fala da mãe e de quanto a ama.

fala do cão.

e de que o cão morde e foge.

a letra é em estrangeiro. E isso faz-me perdoar o facto de que a sua primeira composição não é sobre a mãe e sobre quanto a ama.

em inglês poderemos cobrir muito mais mercados.

terei que desistir do trabalho e mudar-me para St Barts.

Hollywood não faz nada pela educação de uma criança.

Por muito que tente não consigo recuperar a rotina de escrever no Blog.

Não consigo encontrar novidade no dia a dia ou descobrir-lhe momentos que mereçam nota.

O fascínio de se viver numa realidade diferente está apagado pelo cansaço. Já nada é novo e perdemos a capacidade de nos surpreender. Vivemos de comparações e o que já passou supera sempre o presente.

Cansados da dieta alimentar, cansados das pessoas, dos cortes de luz, da água que cheira mal na torneira, do leite que aparece e desaparece nos supermercados, do frango brasileiro, dos preços absurdos, do trânsito caótico onde não existem regras e aconteça o que acontecer a culpa será sempre nossa porque somos estrangeiros, da desvalorização do dólar, dos tubarões no mar agora que os crocodilos estão mais discretos.

gostava de por momentos, só por uns momentos, fazer coisinhas fúteis; ir a um flee market, tocar em coisas velhas, passear na rua sem conviver com a permanente pobreza, atravessar numa passadeira, beber água da torneira, parar e comprar um jornal, apetecer-me cozinhar e poder efectivamente encontrar os ingredientes, dormir de janela aberta, não ter chaves de cadeados, cumprir regras de trânsito, receber correio…

Assim, só por momentos que fosse…

A minha filha fez anos.

Foram 9.

Fez um convite lindo em Inglês.

Em Inglês.

Depois os meninos vieram e falaram e brincaram todos em Inglês.

Brincaram em Inglês porque a partir de certa idade as brincadeiras têm linguas. E à medida que crescem essa linguagem refina-se excluindo outros tipos de comunicação se não estivermos alerta.

Cá em casa manda-se a miuda à escola Internacional e depois imaginamos as sensações dos milhares de emigrantes Portugueses que mandam os filhos para as escolas dos países de acolhimento e vão buscá-los ao fim do dia a um outro planeta sem que ninguém os apoie na ponte entre esses dois mundos.

Na escola dela há meninas Africanas que tiram a peruca de cabelos lisos ao intervalo para arejarem a cabeça explicando que trocam de modelo todos os meses. Há meninas Japonesas que colocam os dois dedinhos no ar em todas as fotos e têm mães delicadas e doces para toda a gente. Há pais que vão ensinar origami e Francês e isto e aquilo e os miudos sentem-se uma comunidade que se reune periodicamente em Assembleia para mostrarem uns aos outros o que andam a fazer.

Mas mais importante do que isso, a minha filha fez 9 anos e pela primeira vez compreendi que ela é completamente feliz.

Em paz com ela própria, com o mundo que a rodeia e com o universo que criou.

E é nisso que ambos pensamos quando nos agarramos um ao outro na vã tentativa de não morder os pulsos quando ela toca pela enésima vez o “Persian Market” na pianola…

Parabéns, querida!

9

Foram nove…

Ponto Quinto das minhas regras do “I can craft and Blog”:

“Quinto: As bloggers de sucesso publicam livros ou participam neles e são entrevistadas em media variados. Hummm… Este é mais dificil! Só mesmo com publicações de autor ou se falar com o jornal cá da terra porque tenho um primo que tem um vizinho que tem um cunhado…”

Ok! Está feito!

A C&T Publishing, que é uma editora Americana da área dos Crafts, convidou-me a participar numa publicação colectiva só sobre Calendários do Advento.

Eu, como sou uma pessoa educada e pouco habituada a dizer que não, disse então que sim.

Nada contrariada e diria mesmo ligeiramente histérica.

Para efeitos estatisticos sou uma Portuguesa publicada no estrangeiro. O resto são detalhes.

É lógico que nunca lhes mandei as instruções porque me fui esquecendo e a mãe, muito à pressa, lá pôs os chinelitos do advento em correio expresso a partir de Portugal e mandou aquilo para a América tendo pago os selos!

Obrigada, mãe!

Portanto, não vos estou a incitar a comprar o livro, até porque ainda estamos em Fevereiro.

Longe de mim a ideia de vos fazer comprar uma coisa só porque eu estou lá e muito provavelmente sendo aquela que só tem fotos porque não mandou o texto…

Longe de mim amaldiçoar-vos por isso.

O importante é que retenham o seguinte: agora posso dizer em estrangeiro nas entrevistas de trabalho - oh yes,  I’m published! - rezando para que ninguém peça detalhes!

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