…de motivação

vasoquando mudámos de lisboa para Coimbra, encontrámos um apartamento com um terraço. fica a meio de uma calçada ingreme e o desnível do terreno faz com que o nosso terraço de 1ºandar, fique praticamente à mesma cota do terreno abandonado das traseiras.

as traseiras do nosso 1ºandar são moldura de outra realidade. em pleno centro de Coimbra, em plena agitação de trânsito, lojas, consultórios, o nosso terraço está virado para um mundo de aldeia. os braços de uma nogueira esticam-se sobre a nossa rede, há uma roseira velhíssima com um tronco como uma arvore que cai do alto sobre o nosso chão e heras sem sentido de propriedade.

no terraço herdámos vasos grandes de barro com plantas meias secas ou retorcidas para chegarem ao sol. o entusiasmo de viver novamente numa terra com estações para além da da chuva, deu vontade de prolongar o verde do outro lado da rede.

arranquei raízes velhas, arranquei plantas mortas, transferi plantas irmãs para o mesmo vaso, limpei a terra de raízes más, e plantei uma Camélia que o meu irmão me ofereceu e faz parte do meu imaginário de criança, uma peónia, um jasmim, tulipas e tulipetas, manjericão, uma roseira, salsa…

em cada vaso prendi com uma mola a foto da planta respetiva que vinha na caixinha das sementes, assim como se lhes indicasse um role model e mais tarde escrevi a giz o nome de cada uma no vaso de barro. e era bonito.

todos os dias visito os vasos. tento controlar, arrancar as ervas que vão biblicamente nascendo.

dois bolbos de tulipa educadamente espreitam na terra. a camélia não morreu e o jasmim também não, mas mantêm-se quietos, assim tipo gente contrariada numa festa com a atitude de “viemos mas não temos que gostar disto”.

a chuva apagou os nomes escritos a giz.

nada nasce.

nada cresce.

eu poderia tentar conversar com elas. dizem que tem impacto. como as vacas que dão mais leite a ouvir música. mas não tenho nada para lhes dizer. não há palavras dentro de mim que façam um ser querer sair do buraco onde está, expor-se aos elementos lutando para crescer.

olho o vaso de terra solta mas húmida, e sonho-me a lentamente  mudar de forma, de tamanho, e a ser sugada por ele , transformada num bolbo  que se acomoda na terra quente e dorme profundamente sem pressa de perceber o que se passa cá fora, sem pressa de abrir caminho até encontrar a luz.

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