de pressão…

tulipasenvergonhadas pela denuncia no blog, as tulipas florescem como se não houvesse amanhã….

e todos os dias ajoelho-me junto ao vaso para as observar de perto em fascínio e constato que não libertam odor.

depois peço-lhes mentalmente desculpa pela exigência.

são todas da mesma cor, mas não toco no assunto à frente delas para não as melindrar.

ser animista é uma dor de cabeça.

 

…de motivação

vasoquando mudámos de lisboa para Coimbra, encontrámos um apartamento com um terraço. fica a meio de uma calçada ingreme e o desnível do terreno faz com que o nosso terraço de 1ºandar, fique praticamente à mesma cota do terreno abandonado das traseiras.

as traseiras do nosso 1ºandar são moldura de outra realidade. em pleno centro de Coimbra, em plena agitação de trânsito, lojas, consultórios, o nosso terraço está virado para um mundo de aldeia. os braços de uma nogueira esticam-se sobre a nossa rede, há uma roseira velhíssima com um tronco como uma arvore que cai do alto sobre o nosso chão e heras sem sentido de propriedade.

no terraço herdámos vasos grandes de barro com plantas meias secas ou retorcidas para chegarem ao sol. o entusiasmo de viver novamente numa terra com estações para além da da chuva, deu vontade de prolongar o verde do outro lado da rede.

arranquei raízes velhas, arranquei plantas mortas, transferi plantas irmãs para o mesmo vaso, limpei a terra de raízes más, e plantei uma Camélia que o meu irmão me ofereceu e faz parte do meu imaginário de criança, uma peónia, um jasmim, tulipas e tulipetas, manjericão, uma roseira, salsa…

em cada vaso prendi com uma mola a foto da planta respetiva que vinha na caixinha das sementes, assim como se lhes indicasse um role model e mais tarde escrevi a giz o nome de cada uma no vaso de barro. e era bonito.

todos os dias visito os vasos. tento controlar, arrancar as ervas que vão biblicamente nascendo.

dois bolbos de tulipa educadamente espreitam na terra. a camélia não morreu e o jasmim também não, mas mantêm-se quietos, assim tipo gente contrariada numa festa com a atitude de “viemos mas não temos que gostar disto”.

a chuva apagou os nomes escritos a giz.

nada nasce.

nada cresce.

eu poderia tentar conversar com elas. dizem que tem impacto. como as vacas que dão mais leite a ouvir música. mas não tenho nada para lhes dizer. não há palavras dentro de mim que façam um ser querer sair do buraco onde está, expor-se aos elementos lutando para crescer.

olho o vaso de terra solta mas húmida, e sonho-me a lentamente  mudar de forma, de tamanho, e a ser sugada por ele , transformada num bolbo  que se acomoda na terra quente e dorme profundamente sem pressa de perceber o que se passa cá fora, sem pressa de abrir caminho até encontrar a luz.

…de mudança

Ao passar pelos rascunhos – já do ano passado, e porque neste blog se escreve uma vez por ano, encontrei este titulo e duas ou três frases escritas sobre deixar a Ásia ao fim de tantos anos e voltar, temporariamente escrevia eu, a Portugal. Mais interessante ainda foi constatar que nem sequer tive a coragem de escrever Portugal; chamei-lhe Europa. Não deixa de ser interessante que para mim europa seja um recurso eufemístico para Portugal! O que nós crescemos, senhores!

Escrever neste blog é um exercício interessante porque, e repetindo-me, passou a ser anual, e porque como desastradamente deixei que me roubassem o domínio, nenhuma das pessoas que me seguia antes o conseguiria fazer agora, caso sentisse curiosidade. Portanto este blog poderia facilmente tornar-se agora num diário dado existir uma quase certa garantia de que o que cá seja escrito ficará perdido na blogosfera, num silêncio total, não por estar em forma de palavras, mas porque ninguém as libertará da sua pobre condição de simples caracteres ordenados que só se transformam em texto se forem lidos e mais ou menos sentidos.

O facebook é interessante porque tem aquele algoritmo fantástico que nos permite relembrar coisas que publicámos há anos.

Hoje apareceu esta foto e esta foto é do tempo do tal rascunho:

20-dez-2015As fotos são veículos curiosos porque mostram na realidade muito pouco. Se olharmos assim, como toda a gente olhou quando a minha filha a publicou, são 3 pessoas felizes que tiveram finalmente a possibilidade de ver o novo filme do Star Wars praticamente no dia em que estreou mundialmente, num país onde não ha água potável – isto não é um privilégio é um evento orgasmico.

Quando hoje revi a foto, não me recordava sequer da ida ao cinema, não fora a legenda. O que  vi foi em primeiro plano uma menina que no espaço de 6 dias deixaria a escola que aprendeu a gostar, todas as amigas que se tinham tornado importantes de uma forma muito real para ela e que lhe permitiram um equilíbrio definitivo com a sua dualidade cultural. Onde aprendeu a não se se deixar afectar por miudos Portugueses pingos de gente mal formada reflexo de pais espiritualmente tolhidos, com os quais apesar de partilhar todas as referencias culturais dado ter sido educada por dois pais também eles Portugueses e de ter feito toda a escolaridade até à data numa outra escola internacional, tornando-a fluente em praticamente 4 línguas, era considerada demasiado escura e demasiado confusa para poder ser incluída na privilegiada esfera de brancura Tuga. Não consigo deixar ainda hoje de me perguntar: se vives num país diferente do teu e colocas os teus filhos numa escola com crianças diversificadas em termos de cor e origem sendo a maioria delas do país que te recebeu, não te questionas quando os teus filhos não levam para casa rigorosamente exemplar algum local? Não te autoquestionas? Manias minhas talvez, poderia eu dizer porque normalmente terminam-se assim os raciocínios deste género. Não! Não são manias minhas. É racismo, ok? Os Portugueses são racistas e neste momento de loucura atrevo-me a dizer também que não fomos simpáticos colonizadores e diferentes de todos os outros apesar dos nossos homens terem copulado mais livremente do que os Britânicos. A desculpa do coito já não pega, meus Senhores.

A menina em primeiro plano teve também que reduzir a vida dela a 25kg de bagagem. E isso, qualquer mulher sabe, qualquer que seja o contexto, é violento!

No meio estou eu de bochechas. O sorriso é obviamente forçado porque não gosto de ser fotografada, mas ainda assim consigo ver nele alguma tranquilidade apesar de me estar a despedir de 7 anos de trabalho no mesmo projecto e a oferecer-me de braços abertos ao desemprego, de à nossa volta já pouco restar do que fomos reunindo ao longo dos anos: o piano comprado em segunda mão num bar de um tailandês e que eu gosto de pensar que veio diretamente de um bar de putas em Banguecoque daquelas que jogam pingpong com o pipi, os moveis que fui desencantando em locais improváveis tipo stands de automoveis usados de Singapura e que me enchiam de orgulho (juro, enchiam-me de orgulho!) e acima de tudo todos os quadros compostos pelo Gonçalo que nos enchiam as paredes todas da casa transformando-a nisso mesmo, numa casa. E os nossos cães, de quem não temos coragem de falar.

Ao meu lado está o Gonçalo, assim na pose que assume enquanto marido; braços cruzados à super herói mas encostado a mim para não se desequilibrar! E eu gosto disso. A foto não mostra que dentro do Gonçalo está um segredo que tinha sido descoberto por acaso e que muito provavelmente nos últimos 10 anos e muito silenciosamente, o segredo foi crescendo em bicos de pés para ele nem ninguém dar conta e planeava aniquila-lo! Assim, cobardemente por dentro, escondido, sem que ninguém pudesse ver ou fazer nada.

Descobrimos o segredo quando estávamos os dois em Bali numa Villa linda e romântica, de um Francês  simpático que nunca vi e me tratava por Áléquesandrá, daquelas villas que não aparecem nos cartazes turísticos porque são tão cozy que mesmo em termos de airbnb ficam assim borderline. Tínhamos janelas no jardim que poderíamos abrir para ver o riacho onde se faziam oferendas, tínhamos o duche tipicamente balinês, a banheira ao ar livre a coberto da chuva, a piscina pequena e privada, a rede de pano, a cama de dia, o quarto de princesa, o jardim manicure, a empregada discreta e simpática. Estávamos no meio de uma zona habitada por balineses, suficientemente longe da zona de Seminyak mas não tão longe que fosse desconfortável chegar até lá a pé ou de taxi. Descobrimos uma casa de chá novinha em folha cuja especialidade eram éclairs e tinham de todos e todos e era tudo tão pequenino e perfeito que cada elemento teria sido colocado com pinça. E para chegarmos até lá caminhávamos ao longo de uma estrada ladeada por grossistas de estátuas esculpidas em pedra, moveis expostos aos elementos para se transformarem em antiguidades e estávamos felizes por mais uma vez perceber que Bali tem sempre algo novo para nós e por muito que tentemos não nos conseguimos cansar da ilha.

Depois um dia, quando como seres conscientes resolvemos aproveitar o estar ali para sabermos como andaríamos por dentro, e investimos dinheiro que poderia ter sido gasto em foie gras, em exames medicos num hospital de cinema, descobrimos o segredo.

Bali ficou diferente a partir dali. Passou a ser o sítio onde o nosso mundo, como no mais básico dos clichés, ruiu. Caminhar ao longo daquela estrada perto de casa transformou-se numa dor porque ficava sempre a sensação que aquela poderia ser a ultima vez que tocava aquelas pedras transformadas em Deusas prestes a serem transportadas para o outro lado do mundo e compradas por fortunas por gente que não sabe que Shiva representa a destruição e a morte e não apenas o renascer e que tem uma pila grande grande em muitas das suas representações e que isso não seria bonito de ver no jardim ou na sala em Bel Air.

O segredo estragou-me Bali. E enquanto eu tocava estas pedras feitas de lava solida, pedras que estiveram bem la no fundo, no interior da terra, liquidas, mas que conseguiram mudar de estado e assumir forma, falava com elas como uma tonta, assim sem abrir a boca, enquanto seguia com o olhar o homem que estava a tentar descobrir como se finge que se é forte e indiferente ao medo e que ía assumindo poses tontas a espreitar as zonas intimas das esculturas gigantescas de soldados chineses. Por vezes o sol do fim do dia incidia sobre ele de forma intensa e eu tinha vontade de gritar “Afasta.te da luz, afasta-te luz”, mas recuperava a dignidade rapidamente recordando-me que não eramos uma serie da Fox Life. Invariavelmente caminhávamos na direção um do outro e eu pousava a bochecha redonda no peito dele e empapava-o de lagrimas e sentia-o a partir – os ombros pareciam mais estreitos, os braços mais magros e curtos como se já estivesse a ser reclamado e por muito que me agarrasse ao que restava, ele iria escapar-me como areia entre os dedos até nada restar e eu ficar sozinha e nunca mais poder voltar ali.

Bali faz parte de mim. Tenho memórias lindas da minha filha pequenina e do Hotel meio chunga que a foi vendo crescer e onde os empregados sabiam o nome dela. Tentamos as duas até hoje encontrar um nasi goreng melhor do que o deles mas não temos coragem de voltar a ficar lá porque no fundo somos umas snobs!

Entrámos em 2016 já em Portugal e com um rascunho muito básico de como seria o ano. Seriam só 3 meses. Uma cirurgia, uma recuperação e voltávamos, ok? Mas não foi assim.

À cirurgia seguiu-se a surpresa da quimioterapia, porque o segredo tinha um nome e o nome era Cancro. Ninguém diz cancro. Diz-se um pequeno tumor maligno e coloca-se ênfase no pequeno. Melhor ainda será dizer piqueno tumor maligno. E se se disser cancro, se efetivamente se usar a palavra. a tradição exige que se baixe a voz. É cancro – e a ultima palavra diz-se assim quase como em mímica. Como se estivesses a falar da filha de alguém nos anos 70 e se dissesse pois coitadinha divorciou-se, ou está separada – e baixava-se a voz porque não era coisa decente para se ser ou fazer e muito menos repetir em voz alta.

E eu, eu que sou tão cheia de tudo e afinal muito à Irene Lisboa tão cheia de coisa nenhuma, dei por mim a dizer sim estamos por cá tivemos um pequeno percalço de saúde. Sem especificar quem ou o quê, como se o Gonçalo ter cancro o tornasse menos macho, como se a responsabilidade de ter cancro fosse dele. O malandro, deu-lhe para aquilo! Vejam bem! Apeteceu-lhe! O cancro do Gonçalo não nos aproximou. Muita gente diz ah a doença tornou-nos mais próximos. Acho isso estúpido e eu conquistei o direito de dizer que acho isto estúpido. O cancro do Gonçalo demonstrou que somos perfeitos como casal. Sim, eu disse perfeitos. Somos absolutamente perfeitos como casal. Não creio que em momento algum o Gonçalo tenha pensado que eu o abandonaria por ele estar avariado, que eu o achava menos homem por estar debilitado, que o amava menos por ele ser simplesmente humano. O cancro do Gonçalo era meu também. Era ele que era injetado, era ele que apanhava grandes pedras de morfina enquanto nós aguardávamos que  despertasse para ouvir sobre as alucinações que tinha tido – pássaros a voar na enfermaria e coisas divertidas no género. E tirando essa parte injusta, porque juro que quero experimentar, estávamos os dois saudavelmente doentes e a ser tratados e encarámos tudo isto com a leveza dos débeis mentais e com a profunda crença de que Deus efetivamente existe mas é terrivelmente distraído e que nos cabe a nós à maneira Timorense quando a lua desparece e o céu fica escuro, vir para a rua bater panelas para que Deus ouça o barulho e se recorde que estamos por cá.

Portanto Deus, estamos aqui. Tocámos-te na tua forma comercial Hindu em Kerobokan a caminho dos éclairs de caramelo, louvamos-te de cada vez que olhamos para a Margarida, para o Pedro e para a Leonor e pensamos que não ha nada no mundo melhor do que eles (excepção feita ao tal nasi goreng referido anteriormente), não nos ajoelhamos em igrejas, não cumprimos rituais, mas somos incapazes de magoar o próximo, de desejar mal ao próximo, de prejudicar o próximo. Acreditamos no direito de todos à educação, aos cuidados medicos não básicos, mas aos necessários, aos álbuns do Bowie, à igualdade de género desde que não nos venham com discursos sobre o assunto e apresentem axilas depiladas, aceitamos que sejas tratado por qualquer nome e respeitamos todos eles, vemos-te como Pessoa manifestado nas arvores, nas montanhas, nos rios, nos risos e admirar tudo isso é a nossa forma de oração. E agradecemos-te este ano de merda de 2016, em que sofremos, em que tivemos medo, em que nos sentimos no limite do suportável, em que chorámos mas nunca quisemos desistir e hoje é dia 21 e ainda aqui estamos e coisas boas começam a acontecer e portanto estamos de panelas na mão a lembrar-te que continuamos aqui, não te esqueças, e precisamos de sopas e descanso em 2017.

Amen!

 

 

 

de apercebo-me…

apercebo-me de que com a idade passei a usar clichés a uma velocidade impressionante.

Saiem-me, soltam-se-me dos lábios sem que eu tenha qualquer tipo de controlo sobre eles.

apercebo-me também de que falo de Deus. Trago Deus para os meus discursos. Justifico eventos com a vontade de Deus e por vezes, não é para efeito poético. Por vezes efectivamente acredito naquilo.

Acho que à medida que o tempo corre e os anos passam e depois de termos acumulado um conjunto de experiências razoaveis, há coisas para as quais por muito que tentemos não conseguimos encontrar uma justificação plausível para a sua existência. É suposto conseguirmos incutir logica e racionalidade ao que nos acontece mas por vezes ela escapa-nos e por muitos anos que passem e por diversas que sejam as diferentes posições em que nos coloquemos para olhar para as coisas de um ângulo diferente, continuamos a não lhe encontrar um sentido.

Acho que na minha idade, quando trazemos Deus para a boca, materializamos uma realidade; a realidade de que há coisas de que desistimos, há esforços a que deixámos de dar importância, há eventos que relativizámos, não os reprimimos, não os recalcámos, optámos por deixar de os tentar entender, de lhes dar um sentido. E nesse momento Deus entra em nós. Porque está ali um vazio. Apenas por isso, porque não ha mais nada para pôr ali.

Mas por momentos sentimo-nos em comunhão com qualquer coisa e por uma fracção de segundos somos uma pessoa diferente. Fomos tocados, sentimos que de nós emana um certo brilho.

Depois olhamos para o espelho e sentimo-nos ridiculos…

de laços…

carla carmen and louie

Hoje recebi esta foto. A menina da direita sou eu. A menina da esquerda é a minha prima Carmen que entretanto cresceu e o menino do meio é o nosso terceiro primo Louie que cresceu também e se tornou um adulto triste. Estamos nos Estados Unidos num casamento que entretanto descresceu e temos na mão um cesto de flores. Lembro-me que achei as flores lindas, que adorei as que me puseram no cabelo e que fiquei triste por não ter uma echarpe como a da minha prima, mas o pano não chegou! Era tudo rosa e brilhante. Eram os anos 70 e os Pink Floyd cantavam The Wall.

carlota

A menina aqui de cima sou eu agora. Redondita! A Carmen cresceu e teve uma filha. Eu também. Ambas as tivemos sem precisar de um marido e sem o termos combinado ou discutido, porque a distância não nos permitiu desenvolver esse tipo de laço. Mas sem sabermos e por trajectos diferentes acabámos as duas com duas miúdas extraordinárias nas nossas vidas.

Hoje a Carmen é uma amiga preciosa. E as adultas que somos aproximaram-se e desenvolveram um amor imenso pela filha uma da outra como se tivessemos crescido juntas, como se eu a tivesse visto nascer.

O mesmo não se passa com a senhora abaixo

Maputo-20121227-07043

A senhora acima fez-me escrever sobre ela e é suposto eu dizer que é M A R A V I L H O S A.

Confesso que com o tempo ela desenvolveu uma certa generosidade. Lá vai arranjando uns portadores e de África chegam-me coisas à Asia que me deixam muito contente. No ultimo ano, no entanto, a coisa tem estado parada. Que eu não lhe mando nada, diz ela. Queixa-se. Quase que a sinto a gemer. E isto entristece-me porque cresci a aprender que a mão direita não deve saber o que a mão esquerda dá.

Mas o facto é que a senhora ali de cima, a Pepé, não é prima, não crescemos juntas, cruzámo-nos profissionalmente no remoto 1998 e penso que ela assim que me viu ficou irremediavelmente cativada. De forma a que eu me apercebesse e por certo apenas com o intuito de chamar a minha atenção, fez-me pagar-lhe cafés numa base diária durante anos (na verdade não eram apenas cafés mas a minha mãe lê este blog – havia alcool, ela consumia alcool!), segurar-lhe a mão enquanto era tatuada – não no sentido de lhe dar força mas simplesmente para não a deixar chegar ao tabaco, segui-la nas lojas para voltar a pendurar os items que ela ía espalhando (saldos em lojas terriveis onde em varias situações praticamente a salvei de caixotes com pilhas de roupa em promoção puxando-a pelas pernas antes de ela ser engolida mas ainda assim permitindo-lhe apanhar a ultima blusinha estilo star trek na melhor fibra sintética). Esta é a pessoa que levava o seu cão de visita a minha casa aproveitando para treinar as suas rotinas de higiene e reclamando de eu lhe dar o Publico e não o Expresso, com paginas relativamente maiores, para lhe aparar o xixi. O xixi escorria na minha sala de estar provando a inclinição do soalho polido, brilhante, recém restaurado. Refiro-me claro, ao xixi do cão (descansa em paz Bubinha!)Esta é a pessoa que não deu o meu nome a nenhum dos filhos usando o facto de eles serem rapazes como desculpa apesar de eu ter limpo o xixi do cão dela, lhe ter pago os cafés, apanhado as roupas, e lhe ter enviado coleiras de marujo para todos os animais domesticos em Moçambique pondo-os quase tão  bonitos como os miudos Von Tramp.

apesar de tudo Pepé, pronto toma lá, sinto a tua falta. Estou certa de que 1h contigo me faria ter saudades da distância, mas ainda assim, e apesar das sessões diarias de skype que nos impedem de produzir trabalho e eventualmente subir na vida., sinto a tua falta.

Um dia faremos plásticas juntas e não nos riremos disto por causa dos pontos.

beijo

…de preguiça

DSC03329às vezes venho ver o blog. Leio os ultimos textos e acho-os embaraçosamente ridiculos. Por vezes olho para as estatisticas e os números são pequeninos pequeninos…até faz pena!

É tudo tão relativo e frágil.

Este blog e o Blogui já foram tão importantes na minha vida e representavam uma parte tão significativa dos meus dias. Fiz amigos através dele. Amizades daquelas que não se querem perder e em que se sente a sorte de nos termos cruzado com estas pessoas. Através do blog pessoas conheceram outras pessoas e estabeleceram não só relações de amizade, mas também relacões de uma solidariedade incrivel.

Não escrevo aqui há um ano. E todas as entradas que leio são de um vazio de conteúdo que me faz questionar se não serão simplesmente um reflexo de mim e daquilo em que me transformei.

A vida muda-nos, não é? Ou as circunstâncias. As nossas circunstâncias. Há momentos em que sentimos que o que estamos a viver não deve ser partilhado. Quando o que vivemos envolve outros, por exemplo. E é tão marcado pela presença de outros que não podemos relatar os nossos dias sem os incluirmos, mas sentimos que não temos o direito de os expôr. Como o meu casamento, por exemplo. O Gonçalo é discreto. Não fala de si aos outros. Falar de nós aqui seria uma espécie de traição à forma dele estar na vida. E a Gui cresceu e tem o seu pequeno blog e o direito de escolher o que quer e não quer que seja partilhado. Mas curiosamente, e porque o Blog tinha um papel tão significativo na minha vida, ambos estranham não fazerem parte dele. O Blogui acompanhou uma Gui pequenina, o The Great Craft Disaster uma Gui a quem a mãe tentava fazer coisas. É um registo do processo de crescimento dela que eu poderia ter feito discretamente em casa num Álbum, num Diário, mas que por várias razões fiz aqui. Há um pedaço da vida dela que falta – 4 anos. Os últimos 4 anos, que foram vividos a 3 e não a 2.

Nestes 4 anos crescemos como familia e aprendemos a respeitar e a valorizar os espaços de cada um. Este é o meu espaço e é um espaço que me faz falta. Não faz falta todos os dias. Talvez não faça falta sequer todas as semanas. Mas faz falta quando faz falta e isso é o suficiente.

Quando fizer falta, virei cá…