…de mudança

Ao passar pelos rascunhos – já do ano passado, e porque neste blog se escreve uma vez por ano, encontrei este titulo e duas ou três frases escritas sobre deixar a Ásia ao fim de tantos anos e voltar, temporariamente escrevia eu, a Portugal. Mais interessante ainda foi constatar que nem sequer tive a coragem de escrever Portugal; chamei-lhe Europa. Não deixa de ser interessante que para mim europa seja um recurso eufemístico para Portugal! O que nós crescemos, senhores!

Escrever neste blog é um exercício interessante porque, e repetindo-me, passou a ser anual, e porque como desastradamente deixei que me roubassem o domínio, nenhuma das pessoas que me seguia antes o conseguiria fazer agora, caso sentisse curiosidade. Portanto este blog poderia facilmente tornar-se agora num diário dado existir uma quase certa garantia de que o que cá seja escrito ficará perdido na blogosfera, num silêncio total, não por estar em forma de palavras, mas porque ninguém as libertará da sua pobre condição de simples caracteres ordenados que só se transformam em texto se forem lidos e mais ou menos sentidos.

O facebook é interessante porque tem aquele algoritmo fantástico que nos permite relembrar coisas que publicámos há anos.

Hoje apareceu esta foto e esta foto é do tempo do tal rascunho:

20-dez-2015As fotos são veículos curiosos porque mostram na realidade muito pouco. Se olharmos assim, como toda a gente olhou quando a minha filha a publicou, são 3 pessoas felizes que tiveram finalmente a possibilidade de ver o novo filme do Star Wars praticamente no dia em que estreou mundialmente, num país onde não ha água potável – isto não é um privilégio é um evento orgasmico.

Quando hoje revi a foto, não me recordava sequer da ida ao cinema, não fora a legenda. O que  vi foi em primeiro plano uma menina que no espaço de 6 dias deixaria a escola que aprendeu a gostar, todas as amigas que se tinham tornado importantes de uma forma muito real para ela e que lhe permitiram um equilíbrio definitivo com a sua dualidade cultural. Onde aprendeu a não se se deixar afectar por miudos Portugueses pingos de gente mal formada reflexo de pais espiritualmente tolhidos, com os quais apesar de partilhar todas as referencias culturais dado ter sido educada por dois pais também eles Portugueses e de ter feito toda a escolaridade até à data numa outra escola internacional, tornando-a fluente em praticamente 4 línguas, era considerada demasiado escura e demasiado confusa para poder ser incluída na privilegiada esfera de brancura Tuga. Não consigo deixar ainda hoje de me perguntar: se vives num país diferente do teu e colocas os teus filhos numa escola com crianças diversificadas em termos de cor e origem sendo a maioria delas do país que te recebeu, não te questionas quando os teus filhos não levam para casa rigorosamente exemplar algum local? Não te autoquestionas? Manias minhas talvez, poderia eu dizer porque normalmente terminam-se assim os raciocínios deste género. Não! Não são manias minhas. É racismo, ok? Os Portugueses são racistas e neste momento de loucura atrevo-me a dizer também que não fomos simpáticos colonizadores e diferentes de todos os outros apesar dos nossos homens terem copulado mais livremente do que os Britânicos. A desculpa do coito já não pega, meus Senhores.

A menina em primeiro plano teve também que reduzir a vida dela a 25kg de bagagem. E isso, qualquer mulher sabe, qualquer que seja o contexto, é violento!

No meio estou eu de bochechas. O sorriso é obviamente forçado porque não gosto de ser fotografada, mas ainda assim consigo ver nele alguma tranquilidade apesar de me estar a despedir de 7 anos de trabalho no mesmo projecto e a oferecer-me de braços abertos ao desemprego, de à nossa volta já pouco restar do que fomos reunindo ao longo dos anos: o piano comprado em segunda mão num bar de um tailandês e que eu gosto de pensar que veio diretamente de um bar de putas em Banguecoque daquelas que jogam pingpong com o pipi, os moveis que fui desencantando em locais improváveis tipo stands de automoveis usados de Singapura e que me enchiam de orgulho (juro, enchiam-me de orgulho!) e acima de tudo todos os quadros compostos pelo Gonçalo que nos enchiam as paredes todas da casa transformando-a nisso mesmo, numa casa. E os nossos cães, de quem não temos coragem de falar.

Ao meu lado está o Gonçalo, assim na pose que assume enquanto marido; braços cruzados à super herói mas encostado a mim para não se desequilibrar! E eu gosto disso. A foto não mostra que dentro do Gonçalo está um segredo que tinha sido descoberto por acaso e que muito provavelmente nos últimos 10 anos e muito silenciosamente, o segredo foi crescendo em bicos de pés para ele nem ninguém dar conta e planeava aniquila-lo! Assim, cobardemente por dentro, escondido, sem que ninguém pudesse ver ou fazer nada.

Descobrimos o segredo quando estávamos os dois em Bali numa Villa linda e romântica, de um Francês  simpático que nunca vi e me tratava por Áléquesandrá, daquelas villas que não aparecem nos cartazes turísticos porque são tão cozy que mesmo em termos de airbnb ficam assim borderline. Tínhamos janelas no jardim que poderíamos abrir para ver o riacho onde se faziam oferendas, tínhamos o duche tipicamente balinês, a banheira ao ar livre a coberto da chuva, a piscina pequena e privada, a rede de pano, a cama de dia, o quarto de princesa, o jardim manicure, a empregada discreta e simpática. Estávamos no meio de uma zona habitada por balineses, suficientemente longe da zona de Seminyak mas não tão longe que fosse desconfortável chegar até lá a pé ou de taxi. Descobrimos uma casa de chá novinha em folha cuja especialidade eram éclairs e tinham de todos e todos e era tudo tão pequenino e perfeito que cada elemento teria sido colocado com pinça. E para chegarmos até lá caminhávamos ao longo de uma estrada ladeada por grossistas de estátuas esculpidas em pedra, moveis expostos aos elementos para se transformarem em antiguidades e estávamos felizes por mais uma vez perceber que Bali tem sempre algo novo para nós e por muito que tentemos não nos conseguimos cansar da ilha.

Depois um dia, quando como seres conscientes resolvemos aproveitar o estar ali para sabermos como andaríamos por dentro, e investimos dinheiro que poderia ter sido gasto em foie gras, em exames medicos num hospital de cinema, descobrimos o segredo.

Bali ficou diferente a partir dali. Passou a ser o sítio onde o nosso mundo, como no mais básico dos clichés, ruiu. Caminhar ao longo daquela estrada perto de casa transformou-se numa dor porque ficava sempre a sensação que aquela poderia ser a ultima vez que tocava aquelas pedras transformadas em Deusas prestes a serem transportadas para o outro lado do mundo e compradas por fortunas por gente que não sabe que Shiva representa a destruição e a morte e não apenas o renascer e que tem uma pila grande grande em muitas das suas representações e que isso não seria bonito de ver no jardim ou na sala em Bel Air.

O segredo estragou-me Bali. E enquanto eu tocava estas pedras feitas de lava solida, pedras que estiveram bem la no fundo, no interior da terra, liquidas, mas que conseguiram mudar de estado e assumir forma, falava com elas como uma tonta, assim sem abrir a boca, enquanto seguia com o olhar o homem que estava a tentar descobrir como se finge que se é forte e indiferente ao medo e que ía assumindo poses tontas a espreitar as zonas intimas das esculturas gigantescas de soldados chineses. Por vezes o sol do fim do dia incidia sobre ele de forma intensa e eu tinha vontade de gritar “Afasta.te da luz, afasta-te luz”, mas recuperava a dignidade rapidamente recordando-me que não eramos uma serie da Fox Life. Invariavelmente caminhávamos na direção um do outro e eu pousava a bochecha redonda no peito dele e empapava-o de lagrimas e sentia-o a partir – os ombros pareciam mais estreitos, os braços mais magros e curtos como se já estivesse a ser reclamado e por muito que me agarrasse ao que restava, ele iria escapar-me como areia entre os dedos até nada restar e eu ficar sozinha e nunca mais poder voltar ali.

Bali faz parte de mim. Tenho memórias lindas da minha filha pequenina e do Hotel meio chunga que a foi vendo crescer e onde os empregados sabiam o nome dela. Tentamos as duas até hoje encontrar um nasi goreng melhor do que o deles mas não temos coragem de voltar a ficar lá porque no fundo somos umas snobs!

Entrámos em 2016 já em Portugal e com um rascunho muito básico de como seria o ano. Seriam só 3 meses. Uma cirurgia, uma recuperação e voltávamos, ok? Mas não foi assim.

À cirurgia seguiu-se a surpresa da quimioterapia, porque o segredo tinha um nome e o nome era Cancro. Ninguém diz cancro. Diz-se um pequeno tumor maligno e coloca-se ênfase no pequeno. Melhor ainda será dizer piqueno tumor maligno. E se se disser cancro, se efetivamente se usar a palavra. a tradição exige que se baixe a voz. É cancro – e a ultima palavra diz-se assim quase como em mímica. Como se estivesses a falar da filha de alguém nos anos 70 e se dissesse pois coitadinha divorciou-se, ou está separada – e baixava-se a voz porque não era coisa decente para se ser ou fazer e muito menos repetir em voz alta.

E eu, eu que sou tão cheia de tudo e afinal muito à Irene Lisboa tão cheia de coisa nenhuma, dei por mim a dizer sim estamos por cá tivemos um pequeno percalço de saúde. Sem especificar quem ou o quê, como se o Gonçalo ter cancro o tornasse menos macho, como se a responsabilidade de ter cancro fosse dele. O malandro, deu-lhe para aquilo! Vejam bem! Apeteceu-lhe! O cancro do Gonçalo não nos aproximou. Muita gente diz ah a doença tornou-nos mais próximos. Acho isso estúpido e eu conquistei o direito de dizer que acho isto estúpido. O cancro do Gonçalo demonstrou que somos perfeitos como casal. Sim, eu disse perfeitos. Somos absolutamente perfeitos como casal. Não creio que em momento algum o Gonçalo tenha pensado que eu o abandonaria por ele estar avariado, que eu o achava menos homem por estar debilitado, que o amava menos por ele ser simplesmente humano. O cancro do Gonçalo era meu também. Era ele que era injetado, era ele que apanhava grandes pedras de morfina enquanto nós aguardávamos que  despertasse para ouvir sobre as alucinações que tinha tido – pássaros a voar na enfermaria e coisas divertidas no género. E tirando essa parte injusta, porque juro que quero experimentar, estávamos os dois saudavelmente doentes e a ser tratados e encarámos tudo isto com a leveza dos débeis mentais e com a profunda crença de que Deus efetivamente existe mas é terrivelmente distraído e que nos cabe a nós à maneira Timorense quando a lua desparece e o céu fica escuro, vir para a rua bater panelas para que Deus ouça o barulho e se recorde que estamos por cá.

Portanto Deus, estamos aqui. Tocámos-te na tua forma comercial Hindu em Kerobokan a caminho dos éclairs de caramelo, louvamos-te de cada vez que olhamos para a Margarida, para o Pedro e para a Leonor e pensamos que não ha nada no mundo melhor do que eles (excepção feita ao tal nasi goreng referido anteriormente), não nos ajoelhamos em igrejas, não cumprimos rituais, mas somos incapazes de magoar o próximo, de desejar mal ao próximo, de prejudicar o próximo. Acreditamos no direito de todos à educação, aos cuidados medicos não básicos, mas aos necessários, aos álbuns do Bowie, à igualdade de género desde que não nos venham com discursos sobre o assunto e apresentem axilas depiladas, aceitamos que sejas tratado por qualquer nome e respeitamos todos eles, vemos-te como Pessoa manifestado nas arvores, nas montanhas, nos rios, nos risos e admirar tudo isso é a nossa forma de oração. E agradecemos-te este ano de merda de 2016, em que sofremos, em que tivemos medo, em que nos sentimos no limite do suportável, em que chorámos mas nunca quisemos desistir e hoje é dia 21 e ainda aqui estamos e coisas boas começam a acontecer e portanto estamos de panelas na mão a lembrar-te que continuamos aqui, não te esqueças, e precisamos de sopas e descanso em 2017.

Amen!

 

 

 

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