de para a Gui…#3

A borboleta de asas negras entra na sala de estar.

Bate as asas como se dissesse “bom dia” e eu respondo-lhe:

– Bom dia Borboleta de Asas Negras! – e digo isto em língua de gente porque penso que quem voa para uma sala e bate as asas em jeito de bom dia é bicho por certo muito educado que deverá entender línguas.

E continuo a ler o meu livro.

Pelo canto do olho vejo que ela continua a dançar agitando as asas e mostrando umas lindas pintinhas amarelas.

– Que lindas pintinhas amarelas, Borboleta de Asas Negras! – digo-lhe em língua de gente porque penso que quem dança assim com umas asas tão lindas merece um elogio.

E continuo a ler o meu livro.

Splash! Ouço eu e levanto a cabeça e vejo o Hermenegildo de patas no ar e unhas de fora a tentar agarrar a Borboleta.

E a borboleta sobe e o Hermenegildo salta. E a borboleta desce e o Hermenegildo salta. E a borboleta volta a subir e o Hermenegildo volta a saltar. E outra vez e outra vez e outra vez. Como se fosse uma dança.

E cansado o Hermenegildo desiste e deita-se, fechando os olhos como se nada daquilo o interessasse. E a Borboleta passa ao meu lado e bate as asas como se dissesse “então adeus”.

E eu respondo em língua de gente:

– Então adeus Borboleta!

E o Hermenegildo sem abrir os olhos abana uma orelha como se dissesse:

-Pfffffff!

de para G…#2

Hoje quando vinha para casa, antes de entrar, atravessei a estrada, saltei o murinho pequenino e entrei na praia. De repente sinto uma coisa a tocar-me a perna e dou um grito. Pensei que fosse uma cobra, daquelas cobras verdes que se escondem na vegetação junto à areia, mas quando olho para baixo vejo um bicho cor de laranja. Era o Hermenegildo.

E ele disse:

-Miauuuuuuuuu! – que em língua de gato deve querer dizer “Senta-te”, porque eu sentei-me e ele pareceu gostar.

Sentada tirei os sapatos e enterrei os meus pés na areia. Dois caranguejos muito muito pequeninos fugiram assustados.

(Tu não te recordas, mas tens medo de caranguejos.)

E correram para a água e desapareceram na espuma.

(Tu não te recordas, mas tens medo da espuma.)

Mexi os dedos dos pés afastando a areia. Dobrei os joelhos para os pés não tocarem na espuma. E ouvi:

– Miauau! – que em língua de gato deve querer dizer “olha para o mar”, porque eu olhei e ele pareceu gostar.

E ao longe, muito ao longe, vejo uma mancha grande cinzenta que entra e sai da água assim ondulante. E um repuxo que se eleva… Uma baleia! Uma baleia atrasada na sua viagem anual…

E sem abrir a boca gritei, gritei assim dentro da minha cabeça:

– Não tenhas pressa! – e fechei os olhos e repeti – Não tenhas pressa Baleia!

E ela pareceu-me abrandar e por momentos deixei de a ver e franzi os olhos e o Hermenegildo estendeu o pescoço e segundos depois vimos um repuxo maior do que os outros. Assim como se fosse um adeus.

E ficámos ali… menina e gato, de pescoço esticado a seguir a baleia atrasada, até o céu ficar laranja a despedir-se do dia.

Laranja como o gato.

Triste como a menina.

de para a G… #1

Hoje conheci um gato côr-de-laranja com pernas muito muito altas e uma grande, grande cabeça. Vive nesta casa e tem imensos irmãos. Quando ele nasceu, a Tracey, que é a dona dele, decidiu chamar-lhe Gildo.

E o gatinho Gildo foi crescendo, crescendo, crescendo. O gatinho gildo não parava de crescer. As pernas ficaram compridas, as patas alargaram e o Gildo parecia decidido a ser o maior gatinho de dili.

Até que um dia a Tracey olhou para ele e pensou:

– Hum, como é que um gatinho tão grande pode ter um nome tão pequenino?

E a partir desse dia o gatinho deixou de ser Gildo e todos passaram a chamar-lhe Hermenegildo. Um nome muito mais adequado ao maior gato de Dili!

Hoje o Hermenegildo veio visitar-me ao quarto. Abriu a porta do roupeiro com a cabeça, saltou lá para dentro e observou todas as minhas roupas.

– Miau – disse ele. Parece-me que aprovou!

Saltou para o chão e passeou por cima de todos os meus sapatos.

– Miau – disse ele. Parece-me que aprovou!

Saltou para a mesa e cheirou todos os meus livros.

-Miau – disse ele. Parece-me que aprovou!

Saltou então para a minha cama e encostou a cabeça à minha perna. Com muito cuidado toquei-lhe na cabeça e fiz-lhe uma festa. Ele virou os olhos grandes para mim e depois fechou-os e começou a fazer um rom-rom profundo. Meio a dormir fez:

-Miau – muito, muito baixinho. Parece-me que aprovou…

Acho que vamos ser amigos!

de 5 de Mayo…

ca em “casa” festejamos o 5 de Mayo.

Elvira a a representante Mexicana, cozinhou…

Gracias Elvira!

Salude!!!

os resultados:

pimentos recheados com frango e queijo envoltos em claras e fritos regados com natas azedas e romas

mole!!!!

sopa!

sobremesa!

“E lo hombre  morrio con falta de que????????

Salude!!!!!!!! “

de…

As duas meninas muito jovens e muito morenas, como só aqui se consegue ser, com cabelos compridos, negros e lindos como só aqui se consegue ter, sentam-se com os dois estrangeiros notoriamente Asiáticos, notoriamente ricos, notoriamente seguros e dominantes, no bar do hotel.
Elas encostam as cadeiras uma à outra em jeito de protecção. Eles sorriem e inclinam-se para a frente e falam. A mais baixa das duas, tímida, responde fazendo gestos largos e lentos com as mãos. Pede coca-cola.
Eles bebem Sumol. Sumol laranja. E eu sinto que me sujam a memória do refrigerante da infância.
Angustio-me. Olho para a minha torrada de pão de Taibessi com a manteiga preguiçosa a derreter e sinto um nó no estômago.
Os sorrisos deles continuam. A mais alta das duas brinca com o chinelo; abana-o, apanha-o com os dedos do pé quando ele está quase a cair e volta a balançá-lo.
Apanha-o e volta a balançá-lo e apanha-o e volta a balançá-lo…
Subitamente a mais baixa abre a carteira; tira um pequeno caderno e tira um lápis e tira um gravador. Organiza tudo no colo, inclina-se para a frente e começa a escrever.
Olho para a minha torrada e a manteiga sorri-me; trinco-a. Sabe-me bem.
A mais alta das duas pára de abanar o chinelo, descansa o pé no chão e encosta-se na cadeira. Ainda vigilante. Ainda a cumprir o dever de companhia.

de o rei vai nú?…

Tenho com Timor uma relação diferente da maioria das pessoas que conheço por duas razões; essa e a outra.

 – A outra porque dediquei grande parte do tempo em que deveria estar a decorar teorias de Durkheim, refinar o discurso académico e justificar o dinheiro investido no ensino privado, a trabalhar a nivel nacional e internacional, a questão da autodeterminação através do Movimento Associativo. Muitos anos antes da coisa realmente acontecer.

 – Essa, porque tenho uma filha Timorense, que herdou uma história de luta vivida por cada uma das mulheres da familia dela, que lutaram e morreram ao lado dos homens.

Amo Timor como se ama um filho travesso.

À minha filha ensinei a dizer que sente orgulho por ser Timorense. Ensinei-lhe o 12 de Novembro, versões ingénuas dos conflitos dos ultimos 2 anos, a reconhecer o cheiro da terra molhada depois das primeiras chuvas, do café ainda em planta, da canela raspada da árvore. A temer corcodilos e tubarões na água, a gritar quando vê um escorpião, trincar amendoim caramelizado e sate de coração de búfalo… e tudo isto para que ela crie uma dupla identidade em que não haja lugar há supremacia de uma cultura sobre a outra, dentro dos limites do possivel, do razoavel e do viável; moldado pelas minhas próprias limitações…

Recusei empregos que me providenciariam dinheiro que me faz muita falta, por ter consciência de que um dia quando ela crescer, terei que lhe justificar cada um dos meus envolvimentos profissionais como afirmações de carácter politico. E sei que não teria forma de encontrar justificações válidas.

Hoje o M telefona-me a chamar-me a atenção para o artigo do Pedro Rosa Mendes no Público. E lêmo-lo em conjunto ao telefone.”Timor-Leste; a ilha insustentável”.

Não conheço o Pedro Rosa Mendes, nunca convivi com ele em Timor, nunca o vi sequer e não tenho qualquer referência sobre a razão que o terá levado a escrever um artigo daquele género. No final fica a sensação de que nada do que diz é novo e tudo o que escreve o é. A novidade do artigo reside na ortografia do discurso. E é como se cada conversa no bar do hotel tivesse sido passada á escrita. E isso traz consigo a tristeza enorme que advém do fim de um estado de negação, e da consequente perda da inocência. E eu fico sem saber decidir se o acho corajoso, destemido ou simplesmente inconsequente.