de…

As duas meninas muito jovens e muito morenas, como só aqui se consegue ser, com cabelos compridos, negros e lindos como só aqui se consegue ter, sentam-se com os dois estrangeiros notoriamente Asiáticos, notoriamente ricos, notoriamente seguros e dominantes, no bar do hotel.
Elas encostam as cadeiras uma à outra em jeito de protecção. Eles sorriem e inclinam-se para a frente e falam. A mais baixa das duas, tímida, responde fazendo gestos largos e lentos com as mãos. Pede coca-cola.
Eles bebem Sumol. Sumol laranja. E eu sinto que me sujam a memória do refrigerante da infância.
Angustio-me. Olho para a minha torrada de pão de Taibessi com a manteiga preguiçosa a derreter e sinto um nó no estômago.
Os sorrisos deles continuam. A mais alta das duas brinca com o chinelo; abana-o, apanha-o com os dedos do pé quando ele está quase a cair e volta a balançá-lo.
Apanha-o e volta a balançá-lo e apanha-o e volta a balançá-lo…
Subitamente a mais baixa abre a carteira; tira um pequeno caderno e tira um lápis e tira um gravador. Organiza tudo no colo, inclina-se para a frente e começa a escrever.
Olho para a minha torrada e a manteiga sorri-me; trinco-a. Sabe-me bem.
A mais alta das duas pára de abanar o chinelo, descansa o pé no chão e encosta-se na cadeira. Ainda vigilante. Ainda a cumprir o dever de companhia.

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