de Rendang…

Da Ásia teremos saudades da facilidade com que se encontram as ervas dos nossos pratos favoritos.

Da maioria desconhecemos o nome em Português ou não aceitamos as traduções; a erva do principe não pode ser tão aromática como o lemon grass, o galangal não é gengibre e o kerisik é muito mais do que côco tostado. As folhas de kaffir não são limão e descrever o odor é impossivel porque fica algo entre a acidez do citrino e o lemon grass. Gosto de as mergulhar na água quente sem objectivo algum e inspirar o vapôr.

Cooking rendang

O Rendang é um prato comido um pouco por todo o Sudoeste Asiático, tendo nascido na Indonésia. As horas que leva a preparar tornam-no um prato festivo. A carne de vaca/bufalo, é cozida lentamente durante horas e horas e horas até ficar tenra e o molho escuro e espêsso e servida com arroz. Continua a ser um dos nossos pratos favoritos e o odor que se espalha pela casa irá sempre trazer-nos à memória os 11 anos de Ásia.

Rendang done!

Fazemos Rendang nos dias de preguiça em casa,em que ninguém sai e se vai vigiando a carne durante três, quatro, cinco horas. Hoje foi um desses dias.

de apercebo-me…

apercebo-me de que com a idade passei a usar clichés a uma velocidade impressionante.

Saiem-me, soltam-se-me dos lábios sem que eu tenha qualquer tipo de controlo sobre eles.

apercebo-me também de que falo de Deus. Trago Deus para os meus discursos. Justifico eventos com a vontade de Deus e por vezes, não é para efeito poético. Por vezes efectivamente acredito naquilo.

Acho que à medida que o tempo corre e os anos passam e depois de termos acumulado um conjunto de experiências razoaveis, há coisas para as quais por muito que tentemos não conseguimos encontrar uma justificação plausível para a sua existência. É suposto conseguirmos incutir logica e racionalidade ao que nos acontece mas por vezes ela escapa-nos e por muitos anos que passem e por diversas que sejam as diferentes posições em que nos coloquemos para olhar para as coisas de um ângulo diferente, continuamos a não lhe encontrar um sentido.

Acho que na minha idade, quando trazemos Deus para a boca, materializamos uma realidade; a realidade de que há coisas de que desistimos, há esforços a que deixámos de dar importância, há eventos que relativizámos, não os reprimimos, não os recalcámos, optámos por deixar de os tentar entender, de lhes dar um sentido. E nesse momento Deus entra em nós. Porque está ali um vazio. Apenas por isso, porque não ha mais nada para pôr ali.

Mas por momentos sentimo-nos em comunhão com qualquer coisa e por uma fracção de segundos somos uma pessoa diferente. Fomos tocados, sentimos que de nós emana um certo brilho.

Depois olhamos para o espelho e sentimo-nos ridiculos…

de laços…

carla carmen and louie

Hoje recebi esta foto. A menina da direita sou eu. A menina da esquerda é a minha prima Carmen que entretanto cresceu e o menino do meio é o nosso terceiro primo Louie que cresceu também e se tornou um adulto triste. Estamos nos Estados Unidos num casamento que entretanto descresceu e temos na mão um cesto de flores. Lembro-me que achei as flores lindas, que adorei as que me puseram no cabelo e que fiquei triste por não ter uma echarpe como a da minha prima, mas o pano não chegou! Era tudo rosa e brilhante. Eram os anos 70 e os Pink Floyd cantavam The Wall.

carlota

A menina aqui de cima sou eu agora. Redondita! A Carmen cresceu e teve uma filha. Eu também. Ambas as tivemos sem precisar de um marido e sem o termos combinado ou discutido, porque a distância não nos permitiu desenvolver esse tipo de laço. Mas sem sabermos e por trajectos diferentes acabámos as duas com duas miúdas extraordinárias nas nossas vidas.

Hoje a Carmen é uma amiga preciosa. E as adultas que somos aproximaram-se e desenvolveram um amor imenso pela filha uma da outra como se tivessemos crescido juntas, como se eu a tivesse visto nascer.

O mesmo não se passa com a senhora abaixo

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A senhora acima fez-me escrever sobre ela e é suposto eu dizer que é M A R A V I L H O S A.

Confesso que com o tempo ela desenvolveu uma certa generosidade. Lá vai arranjando uns portadores e de África chegam-me coisas à Asia que me deixam muito contente. No ultimo ano, no entanto, a coisa tem estado parada. Que eu não lhe mando nada, diz ela. Queixa-se. Quase que a sinto a gemer. E isto entristece-me porque cresci a aprender que a mão direita não deve saber o que a mão esquerda dá.

Mas o facto é que a senhora ali de cima, a Pepé, não é prima, não crescemos juntas, cruzámo-nos profissionalmente no remoto 1998 e penso que ela assim que me viu ficou irremediavelmente cativada. De forma a que eu me apercebesse e por certo apenas com o intuito de chamar a minha atenção, fez-me pagar-lhe cafés numa base diária durante anos (na verdade não eram apenas cafés mas a minha mãe lê este blog – havia alcool, ela consumia alcool!), segurar-lhe a mão enquanto era tatuada – não no sentido de lhe dar força mas simplesmente para não a deixar chegar ao tabaco, segui-la nas lojas para voltar a pendurar os items que ela ía espalhando (saldos em lojas terriveis onde em varias situações praticamente a salvei de caixotes com pilhas de roupa em promoção puxando-a pelas pernas antes de ela ser engolida mas ainda assim permitindo-lhe apanhar a ultima blusinha estilo star trek na melhor fibra sintética). Esta é a pessoa que levava o seu cão de visita a minha casa aproveitando para treinar as suas rotinas de higiene e reclamando de eu lhe dar o Publico e não o Expresso, com paginas relativamente maiores, para lhe aparar o xixi. O xixi escorria na minha sala de estar provando a inclinição do soalho polido, brilhante, recém restaurado. Refiro-me claro, ao xixi do cão (descansa em paz Bubinha!)Esta é a pessoa que não deu o meu nome a nenhum dos filhos usando o facto de eles serem rapazes como desculpa apesar de eu ter limpo o xixi do cão dela, lhe ter pago os cafés, apanhado as roupas, e lhe ter enviado coleiras de marujo para todos os animais domesticos em Moçambique pondo-os quase tão  bonitos como os miudos Von Tramp.

apesar de tudo Pepé, pronto toma lá, sinto a tua falta. Estou certa de que 1h contigo me faria ter saudades da distância, mas ainda assim, e apesar das sessões diarias de skype que nos impedem de produzir trabalho e eventualmente subir na vida., sinto a tua falta.

Um dia faremos plásticas juntas e não nos riremos disto por causa dos pontos.

beijo