de fim de semana…

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os fins de semana revelam-se estupidamente curtos.

o cansaço ocupa-os. a vontade dormir retira tempo para o resto.

quarta é dia de aniversário longe das amigas do costume. os presentes serão pirosos para compensar a tristeza.

sai-se das lojas com a irritante gata japonesa  dentro de uma caixa perfeita e espera-se que isso compense.

sente-se a tentação de fazer o bolo a condizer.

e sabe bem ter estas preocupações de volta.

o fim de semana trouxe praia cristalina, picadas de insecto, diarreia de cão, sopa misou para uma barriga que dói, muito sol e a descoberta de um sítio novo com sumos de abacate.

espera-se pelo próximo fim de semana.

Arrastamo-nos os três para a segunda que chega, com muito pouca energia, com saudades da areia nos pés e a praia cristalina e preparados apra a próxima dor de barriga, picada de insecto, sumo de abacate e tentando não pensar muito na potencial diarreia, do cão que insiste em devorar areia …

de adptasaun…

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há coisas mais fáceis outras mais difíceis.

apercebemo-nos de que a linguagem universal da brincadeira desaparece a partir de uma certa idade, causando algum isolamento e fazendo as crianças falarem outras línguas mesmo quando partilham a mesma.

os gostos definem-se, as preferências, os livros, os heróis dos filmes, as canções que se coreografam… e depois ningém sabe destas coisas, ninguém conhece, e a barriga tende a doer antes de dormir e logo pela manhã ao acordar…

o que ela não sabe ainda é que os crescidos também sentem estas coisas

de volta…

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saudades daquela pele ainda húmida depois do banho e do odor que se desprende dela.

saudades da voz calma antes do dormir, dos olhos meio fechados a tentar provar que ainda não há sono, das pequeninas teimas, do corpo enroscado na almofada, da preguiça ao acordar, das mãozinhas chatas no cabelo, das gargalhadas tontas a propósito de qualquer coisa insignificante, do rosa piroso em todo o objecto.

e tudo isso de volta em dose diária.

e então chega outra saudade.

saudade de quando tinha tempo para fazer lanchinhos depois da escola, acompanhar trabalhos de casa, participar em actividades, levar-te, trazer-te a todo o sitio, a qualquer hora, sem olhar para o relógio, sem ter que correr para o escritório, sem me justificar perante chefes estéreis de afectos.

e temos aqui o mar ao lado. e passamos por ele todas as manhãs. e hoje estava azul quase transparente porque não choveu. E deixamo-lo em hold até não haver reuniões onde os adultos tomam decisões de grande importância com impacto relativo.

E a saudade que fica é a de quando tudo o que eu fazia era ser tua mãe e os dias me devolviam uma satisfação em nada comparável à de um relatório sem correcções…

de ondas…

n/aA chuva em Dili traz atrás de si todo o lixo da montanha, tingindo o mar de castanho, decorando-o com todo o tipo de embalagens.

A chuva  traz o quotidiano para o mar; as embalagens de noodles, os copinhos plásticos de água. E se nos sentarmos quietos ali para os lados do Ocean View, quando a ribeira se decide a ir por outros caminhos,  que não os do costume, vemos a água em velocidade a romper pela terra, chegando-se à estrada e dirigindo-se ao mar e entrando nele em conflito, provocando ondas de puro chocolate com uma violência moderada.

A violência moderada é uma coisa muito irritante.

de massagem 2 …

a menina desta vez não levanta as mãos não junta as palmas e não reza.

não chama o Deus para as mãos.

e massaja.

no dia seguinte acorda-se repousada pela primeira vez desde há muito tempo.

e fica-se a pensar que talvez a dor não exista quando Deus não é envolvido no assunto.

de amor e de sombras…

Irritam-me os blogs intimistas, de grande auto-análise e partilha, egocêntricos, praticamente anais.

Falemos então de mim.

Estou doente.

E repito: estou doente.

E digo-o outra vez: estou doente.

Estar doente não é estar fraco, nem fragilizado, nem dependente. Avaria-se-nos uma coisa. Concertamo-la. Ou não. No meu caso concertamo-la e pronto.

E fica-se triste, claro!

E chora-se e tal. Mas depois desperta-se e organizam-se as coisas e é bom quando olhamos à volta e vemos gente. Ou mesmo sem olharmos sentimos a gente lá.

E a gente não nos agarra com abraços nem nos dá beijinhos no dói-dói. Mas procuram links na net, preços, disponibilizam férias insistem em viagens afuguentam ruidosamente a solidão e a angústia que inevitavelmente se sente quando olhamos o espelho e dizemos a nós próprios: “Estou doente”.

E sabemos que tudo vai ficar bem.

Sei que tudo vai fcar bem.

E não vou dedicar muito tempo a pensar nisso.

Começou a chover em Dili. E quando a chuva bate com força no telhado de zinco e me deito no meu quarto agora branco, agora praticamente organizado e sinto a gente através do som das gotas grossas, sei que este é o meu sítio e definitivamente esta é a minha gente.

E tudo está bem.

de peixes e pássaros…

fishPasso a manhã a explicar à siciliana de serviço recentemente obcecada por Pablo Neruda, por ser talvez o único poeta de expressão castelhana que conhece(!!!!), que os poemas que escolhe são uma grande tontice e ninguém se toca quando lê sobre a a alma morta e o sofrimento atroz do espírito.

Passo-lhe um excerto do “livro das perguntas” de Neruda e leio-lhe “Ou não seria a vida um peixe, preparado para ser pássaro?”. E explico-lhe o sentido. Ou o sentido que lhe dou. E ela abre muito os olhos como quando se é criança e se descobre uma coisa ou como quando se é adulto e alguém põe em palavras aquilo que desesperadamente não conseguimos verbalizar.

E a manhã continuou com peixes e pássaros soltos no nosso gabinete e o momento foi bonito.
Assim mesmo, bonito. Como só podem ser bonitas as coisas tocadas por espíritos Chilenos (saudades de Chiloé, saudades de Chiloé…)

Depois de almoço ao regressar ao escritório, pela estrada do farol, há uma pequena onda que se ergue salpicando o alcatrão, trazendo na crista qualquer coisa que cai na estrada.

Era um peixe.

E eu paro e saio e aproximo-me dele com a urgência dos que julgam que têm uma missão.

Apanho-o e ele debate-se e sinto-lhe a pele fria nas mãos e agarro-a com a outra e devolvo-o ao mar.

E perco-o de vista.

Sorrio achando tudo aquilo hilariante tudo aquilo extraordinário tudo aquilo surpreendentemente fantástico depois de uma manhã de pássaros e peixes à solta no gabinete.

Mas à medida que o tempo corre, à medida que a tarde passa e os peixes e pássaros se vão retirando, de cada vez que cheiro as mãos e não lhes sinto o odor que deveria lá estar, sinto o erro.

E penso na vida peixe preparada para ser pássaro, que sobe até à crista da onda e voa caindo na estrada e nas mãos que a agarram e devolvem ao sítio de onde quis sair, negando-lhe o sonho.

e as mãos foram as minhas.

de Dame…

côco naufrago

côco naufrago

quando em 99 nos colávamos à televisão a seguir atentamente um Timor que víamos em directo pela primeira vez, não adivinhávamos o horror que se seguiria.

o rapaz cuja imagem foi repetida à exaustão mostrando-o morto numa mancha enorme de sangue na rua,  descubro 2 anos mais tarde ser o irmão mais novo da mulher que se tornaria uma das minhas mais próximas amigas. e esta semana pude juntar-me à familia e amigos e celebrar a vida dele – falhei a missa porque entrei na igreja errada e assisti ao funeral da avó de alguém que ainda hoje – no sítio onde estiver –  estará por certo muito confusa com a minha presença.

10 anos depois os amigos juntaram-se como se se tivessem encontrado na noite anterior, como se nada tivesse mudado e o tempo não os tivesse transformado em gente diferente. 10 anos depois os mesmos amigos que saltaram os muros do cemitério para o ajudar a enterrar e que desapareceram no mesmo silêncio com que chegaram por entre distracções de militares, espalharam flores, acenderam velas e sorriram e conversaram como se fossem novamente adolescentes e como se nada daquilo lhes tivesse verdadeiramente acontecido.

a todos e a cada um foi-lhes retirada a infância. e a todos e cada um dos filhos deles, 2006 reavivou o mesmo ciclo. e o sofrimento torna-se uma coisa tão real, e o medo tão estranhamente familiar que se transforma numa aparente indiferença disfarçada de aceitação.

No discurso dos 10 anos, Ian Martin menciona o conhecido milagre da mesa eleitoral 22.

Na mesa eleitoral 22 apareceu em braços uma velha que tinha morrido no dia anterior. A familia deitou-a, vestiu-a, rodeou-a de velas e velou-a durante a noite. Pela manhã ela desperta e informa-os que tem que ir votar. E foi.

os 10 anos pós referendo são 10 anos de história que se diz imperfeita. Como se houvesse um padrão de qualidade para a história.

os 10 anos de pós referendo são 10 anos de aprendizagem. Nada mais.

com os altos e baixos inerentes à descoberta da democracia num sítio onde o conceito é não só novo como antropologicamente estranho.

os 1o anos de referendo serão 10 anos de história imperfeita para os que acreditam que têm o direito de interferir, para os que acreditam que possuem os modelos perfeitos , a solução ideal, o único caminho viável. A aprendizagem faz-se lamentavelmente através do erro, com a queda, com a decepção. E o caminho vai-se encontrando retirando humildade da experiência.

Timor é a tua primeira terra, minha filha. Está marcado na tua pele, no formato dos teus olhos, na tua obstinação, nas curvinhas do teu corpo em crescimento. E um dia vais aprender sobre as mulheres da tua familia de origem; sobre a forma como viveram, como lutaram, como morreram a resistir. E vais sentir Timor no peito e lembrar o cheiro da terra molhada e aprender a glória da luta, e a dor de resistir e se tudo correr bem, vais sentir orgulho e pertença e fluir entre este mundo daqui e outro para onde te levei e encontrar paz em tudo isso.

Dame!

de acontece…

há dias em que nada faz muito sentido. organiza-se um raciocínio e transformamo-lo em palavras mas as palavras não soam como as pensámos e a coisa que se diz é a coisa que se pensou mas soava muito melhor na nossa cabeça.

as palavras são coisa muito perigosa e com grande tendência para a traição. soltamo-las e quando damos conta elas causam um número infinito de encolheres de ombro, suspiros profundos e sensações de tédio infinito. e quando olhamos para elas mal as reconhecemos porque as tontas vestiram-se de outra forma.

a tecnologia de comunicação é também muito matreira. a pessoa na sua inocência vê-a como uma ferramenta de eliminação da distância. mas não é bem assim. os teclados são obra do demo. a pessoa digita e espera em frente ao monitor – qualquer que seja o seu tamanho – e concede uma janela temporal de não menos que 3 minutos à resposta. o blackberry anda por aí a arruinar coisas que no tempo dos serviços de snail mail teriam 80% de possibilidade de sobrevivência saudável.

as relações passaram a depender da qualidade de acesso e bom funcionamento dos meios tecnológicos. a medida da emoção é feita através da rapidez da resposta. isso do amor é uma questão de timing.

de por vezes…

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Por vezes penso que gostaria de crescer e deixar de me sentir confusa. De saber exactamente o que quero. Ter um percurso definido, objectivos demarcados e acima de tudo certezas absolutas. Gostava de ser uma dessas chatas com certezas absolutas. Daquelas que começam frases com”eu sempre disse que…”

Mas é o não querer isto hoje e o sentir que não posso viver sem isso amanhã, é nessa incerteza nesse não saber, no querer não querendo, no tendo sem procurar, no procurar não encontrando e no estado de fragilidade que a constatação de tudo isso provoca, que reside a essência daquilo que sou.

E se por vezes penso que gostaria de crescer e deixar de me sentir confusa. De saber exactamente o que quero. Ter um percurso definido, objectivos demarcados e acima de tudo certezas absolutas, rapidamente chego à conclusão de que cresço com cada dúvida que enfrento, que me defino pelo rasto que vou deixando e que vivo com a certeza absoluta de tudo isto.

de positivo…

mornings in the backyard

Quando se acorda pela manhã de coração engelhado, quando nem Good Charlotte ajuda, nem sumo de laranja da Susana, nem torrada de cereais, nem café da montanha, nem perfume de côco, coloque a pessoa os saltos mais altos, abra a pessoa a porta e a contraporta e caminhe, com a levura permitida por uns tacões de 15cm, em direcção ao jardim.

E que a pessoa olhe o chão e  sinta a cor. Um dedo de cada vez. Uma perna. um braço, cada poro.

E continue a pessoa para o carro  manobrando-o com cuidado espreitando atraves da cor e seguindo depois ao longo do mar já com velocidade.

E sorria a pessoa ao contemplar a chuva de petalas de jambo que vai deixando para trás; contaminando a rua, os carros que passam, deixando-as soltas no ar… e na manhã seguinte acorde-se de coração engomado, coloque-se os saltos do costume, abra-se a porta e a contraporta e caminhe-se, com a levura permitida pelo seu proprio 1,61 de altura, em direcção ao jardim. E que a pessoa olhe o chão e sinta a cor. E que se sente ali já de pés descalços, 30 segundos de pausa antes do dia começar, encoste-se o tronco ao tronco, feche-se os olhos e veja-se a cor por dentro.

E saiba-se que nada pode ser mais intimo do que isto, nada pode ser mais honesto do que isto; o prazer da cor que chega com a estação; sem data mas com época. Que murcha e se extingue ao fim de uns dias e que deixa pouco mais do que uma memória fotografica.

de pois claro…

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No doplet em frente ao meu senta-se um casal idoso Japonês. Descalçam-se e sobem. Recostam-se um em frente ao outro. Ele pega-lhe na perna pequenina, apoia-lhe o pé no joelho e massaja-o lentamente. Ela fecha os olhos e ajeita-se na almofada.

A imitacao da Hermes agita-se sobre o peito; a respiração vai ficando mais lenta, mais pousada, e ela cada vez mais pequena na almofada. E ele continua a massajar-lhe as pernas. E da eficiência passa à devoção. E cada toque é um acto de amor. E o sentimento passa-lhe das mãos para a sala. Para toda a sala. E invade as narinas, mistura-se no sate e todos comem e cheiram o amor velho que emana da mãos dele.

E os copos passam a ser pousados com menos vigor, as vozes baixam, e um grupo de estranhos de todas as cores, sufoca com o sentimento celebrando-o com o silêncio.

Talvez o amor só valha a pena se for assim; quando se solta dos dedos e invade os espaços

da memoria..

O photojojo é um sistema que funciona através do flickr seleccionando fotos e enviando-as bimensalmente um ano depois.

Tem também cápsulas do tempo onde se guardam mensagens que serão enviadas no período  pré definido.

Hoje recebi 3 fotos de há um ano atrás:

A minha filha oriental com o céu de fim do dia no jardim da avó.

mae lae

A sangria de champanhe e frutos silvestres típica das festas de aniversario do irmão mais novo.

sangria

Os pés sujos adormecidos de final de dia de brincadeira descalça.

pes

E passa-se o dedo sobre o monitor e contorna-se um pezinho de cada vez…

de aniversario…

por vezes a vida trata-nos bem e apesar da distancia de seres pequeninos que nos enchem o coracao de saudade, surgem estranhos que se tornam proximos e o afecto chega de todas as formas, vindo das mais inesperadas direccoes, expresso nos mais surpreendentes e delicados gestos.

e ja muito tarde enrolada nos lencois brancos emprestados que me lembram a infancia, inicio, sem dar conta, um exercicio de revisao de todos os nomes que fizeram o dia especial. Assim um a um como quem desfia um rosario, com a diferenca de que cada conta e’ um rosto e cada rosto ‘e uma memoria e cada memoria um gesto e cada gesto …

e antes de terminar o raciocinio, assim mesmo mesmo antes de terminar o exercicio adormeco profundamente num muito provavel ritmado ronco qualificado pelo habitante do quarto ao lado de 4.2 na escala de Richter…

de Vulindlela…

dos muitos sons que associo a Timor, este sera estranhamente aquele que me transportara imediatamente para ca.

nao ha restaurante, festarola, taxi, mikrolete, barzinho da moda que nos ultimos 6 anos nao tenha a Brenda Fassie a gritar Vulindlela.

Vul’indlela wemamgobhozi
He unyana wam
Helele uyashada namhlanje
Vul’indlela wela ma ngiyabuza
Msuba nomona
Unyana wami uthathile
Bengingazi ngiyombon’umakoti
Unyana wam eh ujongile this time
Makgadi fele usenzo s’cede
Uzemshadweni ngiyashadisa namhlanje
Bebesithi unyana wam lisoka
Bebesithi angeke ashade vul’indlela
Chorus x 2 :
Vul’indlela we mamgobhozi
Vul’indlela yekela umona
Kodwa wena maNgobese
Hey unomona
Ngoba awunanyana
Unentombizodwa
Ayoyoyo mangobese
Hee unomona ngoba hee awunaye unyana onjengowami
Bengingazi ngiyombon’umakoti
Unyana wam eh ujongile this time
Makgadi fele usenzo s’cede
Uzemshadweni ngiyashadisa namhlanje
Bebesithi unyana wam lisoka
Bebesithi angeke ashade vul’indlela

6 anos depois continuamos todos sem saber o que a senhora diz…