de para a Gui #6

O Hermenegildo acorda de barriga para o ar. Que grande soneca!

No porto já começa a escurecer. O ferry partiu novamente levando outras pessoas, outras crianças, outras galinhas e outros cavalos. Os grandes navios ainda se vêem lá ao longe, e os automóveis estão agora muito alinhados à espera dos novos donos que os virão buscar. Os sacos de arroz sobem a montanha dentro de camiões e os funcionários do porto acendem os cigarros e caminham para a rua em direcção a casa.

O Porto fica silencioso e só se ouvem as ondas pequeninas a bater nas pedras. E então o Hermenegildo estica-se, estica-se a espreguiçar-se; cauda no ar, patinhas da frente dobradas e abre muito, muito a boca a bocejar.

– Meraaaaaaaaaaau! – que deve querer dizer “estou pronto para a aventura”, porque ele levantou-se com passos muito decididos a bater com força com as patas no chão, deixando as marcas em triângulo desenhadas no pó, muito direitas a apontar para a frente.

Apenas para a frente.

E chegou à outra ponta do porto, onde acaba o alcatrão e começa o mar.

E sentou-se.

Mexeu o narizinho e sentiu o cheiro forte do mar. Inspirou outra vez e mexeu as orelhas quando sentiu a brisa fresca a passar. O céu estava já coberto de estrelas e ele levantou a cabeça e olhou para elas. O mesmo movimento que fez quando olhou para a minha janela. A janela que fica entreaberta para ele poder entrar.

E pensou nisso e sentiu saudade.

Um peixinho saltou na água e ele lembrou-se do prato em tons de azul com formato de peixe no chão junto ao armário onde todos os dias ele encontra comida.

E pensou nisso e sentiu saudade.

E sentiu uma coisa por dentro, assim uma coisa desagradável, uma coisa que começou pequenina, pequenina e cresceu, cresceu até lhe chegar aos olhos e ao coração e se transformar em lágrimas. Essa coisa chama-se tristeza. A tristeza é uma coisa que aparece sem ser convidada e esconde-se dentro de nós. Depois quando quer sair transforma-se em lágrimas e rola pela cara abaixo. Rola, rola até chegar ao queixo. E se estivermos a escrever a tristeza pode cair em gotas em cima dos nossos desenhos e se a provarmos descobrimos que é salgada.

E ás vezes quando sentimos saudade sentimos tristeza. Mas a saudade do Hermenegildo não tinha tristeza.

Era uma saudade feliz.

Porque o prato em tons de azul com forma de peixe estará sempre no mesmo sítio ao lado do armário à espera dele.

Porque a janela do meu quarto estará sempre entreaberta à espera dele.

Porque o gato cinzento e o gato das manchas e o gato laranja com a pata branca e o outro gato irritante que mia de maneira esquisita estarão todas as noites no mesmo telhado e todas as tardes no mesmo muro e todas as manhãs nas casas dos donos deles. Porque há coisas no nosso mundo que nunca mudam e serão sempre sempre iguais.

Assim como a Margarida e a Ana rosa e a Carolina estarão sempre aí; no ballet, no piano, no recreio da escola. E se ficares podes vê-las todos os dias, mas nunca verás este porto onde chegam navios com automóveis na barriga, nunca verás o ferry que transporta pessoas, crianças, galinhas e cavalos, nunca sentirás este cheiro do mar no nariz, nem a baleia atrasada nem o céu laranja. E até os gatos percebem que o mundo é uma coisa grande. Grande, grande com línguas diferentes que é bom aprender, com meninas diferentes com quem é bom brincar.

E por isso o Hermenegildo fez:

-Miaudau! – que nós já sabemos que quer dizer “Nada me assusta”, e levantou novamente a cabeça para o ceú e agitou o nariz e sacudiu as orelhas e descobriu ao longe um barquinho de pesca parado na areia. E correu nessa direccão com passos muito decididos a bater com força com as patas no chão, deixando as marcas em triângulo desenhadas na areia, muito direitas a apontar para a frente.

Apenas para a frente.

Saltou para o barco e escondeu-se debaixo das redes de pesca.

– Miaudau! – “Nada me assusta”!

E a aventura está prestes a começar!

Miaudau, nada me assusta!

E agora diz tu baixinho:

– Miaudau, nada me assusta!

E agora devagar:

– Mi-au-dau, na-da me a-ssus-ta!

E agora a sussurrar:

– Miaudau nada me assusta!

Boa noite, minha Gui!

Miaudau, que nada te assuste.

Miaudau…

de para a Gui #5

Cansado da sala, dos quartos, do jardim e da pequena praia, cansado de viver num mundo tão pequeno, o Hermenegildo acorda determinado a mudar de vida.

Corre para a cozinha, toma o pequeno almoço na sua taça em forma de peixe em tons de azul e encaminha-se para o portão.

Olha para a direita e vê os meninos a brincar na rua. Olha para a esquerda e vê a estrada grande. Olha para trás e vê a casa com a varanda onde todos se sentam a beber café e contemplar o mar, e a porta da cozinha onde junto ao armário se encontra a taça em forma de peixe em tons de azul. Levanta mais a cabeça e olha para o meu quarto lá no cimo, com a janela entreaberta para que ele possa levantá-la com a pata e entrar durante a noite. E o Hermenegildo respira fundo e diz:

– Miau! – assim, apenas um simples “Miau” maldisposto que em língua de gato deve querer dizer “Adeus”, porque ele partiu estrada fora muito senhor dos seus bigodes, a bater com força com as patas no chão, deixando as marcas em triângulo desenhadas no pó, muito direitas a apontar para a frente. Apenas para a frente.

E desapareceu.

Caminhou durante duas horas ao longo do mar. Ao lado passam carros em alta velocidade, taxis amarelos, bicicletas verdes, motorizadas com muitas cores. E todos apitam, fazem pó e fumo, gritam uns com os outros.

– Miaudau! – Fez ele, que deve querer dizer “Nada me vai assustar”, porque ele continuou de passo certo deixando as mesmas marcas em triângulo desenhadas no pó, muito direitas a apontar para a frente. Apenas para a frente.

E caminhou mais uma hora. Passou em frente ao farol e sentou-se a descansar. Olhou para o mar e viu um atum a saltar e pensou:

– Miauuurau! – que deve querer dizer “Tenho fome” porque ouviu-se a barriga a reclamar. Mas como é um gato valente levanta-se e continua a viagem. E caminhou, caminhou, caminhou até que chegou ao porto.

E escondeu-se.

No porto há uma grande agitação; barcos carregados de sacos de arroz chegam. Pequenas filas de gente levam os sacos até um grande camião. Navios enormes abrem as portas e de dentro saem automóveis. O Ferry despeja pessoas e sacos e crianças e galinhas e cabras e dois cavalos que viajaram da ilha até aqui. E entre eles estão homens de Ataúro carregados com esculturas de madeira negras para vender aos Malae em Dili.

E o Hermenegildo esconde-se. Esconde-se bem escondido debaixo das folhas de uma bananeira baixinha. (As bananeiras não são árvores. As bananeiras são ervas gigantes, mas pouca gente sabe disso.)

– Miauraurau! – disse ele, que deve querer dizer “vou esperar”, porque ele deixou-se ficar ali muito quieto, mesmo muito quieto, tão quieto, tão quieto, que acabou por adormecer…

de para a Gui#4

Existem três formas de um gato se alimentar, pensou o Hermenegildo.

3!

Primeira forma: um gato pode esconder-se durante horas assim debaixo de uma mesa, ou debaixo de uma cadeira, ou mesmo dentro de um armário caso alguém se esqueça de o fechar. Espera, espera, e quando aparece um daqueles ratos tontos que pensa que por ser pequeno ninguém o vê, salta e come-o.

Possível problema, o rato é rápido e foge. O gato então tem que o perseguir e isso é uma coisa muito cansativa.

Segunda forma: um gato esconde-se atrás de uma cortina ou atrás de uma bota alta de borracha que não esteja muito suja e espera que um outro gato que esteja há horas escondido debaixo de uma mesa, ou debaixo de uma cadeira, ou mesmo dentro de um armário que alguém se tenha esquecido de fechar, salte e apanhe um daqueles ratos tontos que pensa que por ser pequeno ninguém o vê. Quando o outro gato estiver quase quase a comê-lo, assim mesmo com a boca aberta aberta e os olhos um bocadinho fechados por a boca estar tão aberta , então nesse momento o gato salta e rouba-lhe o rato.

Possível problema, o outro gato é rápido e foge. O gato tem que o perseguir e isso é uma coisa muito cansativa.

Terceira forma: um gato faz um ar amoroso e roça-se nas pernas da sua dona, ela pega-lhe ao colo e ele começa a fazer rom-rom. A dona, absolutamente encantada corre a abrir uma latinha especial de patê de sardinha.

Possível problema: a dona constata que o gato lhe encheu de pêlos o vestido comprido dourado com borboletas pretas em veludo e coroa a condizer. Fica furiosa porque estava mesmo mesmo para sair e torna-se um bocadinho agressiva. O gato tem que fugir e isso é uma coisa muito cansativa.

Mas existe uma quarta forma que só o Hermenegildo conhece: um gato senta-se em cima do frigorifico onde estão sentados alguns bonecos um pouco estranhos, e fica muito quieto. Mas mesmo muito muito quieto. Tão quieto que ninguém percebe que ele respira, que ele mexe os olhos, que ele abana as orelhas ou sacode os bigodes. Quieto como se fosse apenas mais um boneco! E espera porque sabe que alguém terá fome. Alguém muito distraído virá cozinhar. Alguém irá virar as costas por um momento, ou esquecer-se de qualquer coisa no quarto e ir lá a correr buscá-la. E nessa altura um gato esperto salta de cima do frigorifico, lança-se sobre o prato, escolhe o mais saboroso dos pedacinhos de carne e foge silenciosamente para o jardim…

E agora que expliquei as 3 formas possíveis de um gato se alimentar e a forma mais simples de um gato o conseguir fazer, vou voltar para a cozinha porque o meu lanchinho está a arrefecer.

– Oh! Onde está o meu crepe? Hermenegiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiildo!

de mar nos pes…

Sexta.

Os táxis não circulam para a zona do escritório. Limpam-se as ruas e corta-se o trânsito.

O taxista transporta-me durante 200m. Pára e avisa-me que não pode continuar. Cobra-me. Recuso-me. Cobra-me. Recuso-me. Cobra-me. Saio e vou embora.

Sento-me no muro em frente à Lusa e recordo os “Sampaios”.

Nota mental. Boa gente. Saudades.

Reorganizo-me; mensagens aos colegas do escritório. Espero.

Mensagem à M. 21minutos e meio diz a resposta. De atraso, penso eu. E sorrio!

Espero. Sentada no muro à beira da estrada.

Apago mensagens antigas.

Espero.

Fotografo a Lusa.

Espero.

Entedio-me e espero.

O vento traz-me o cheiro do mar. Viro-me. 60 graus apenas. Viro-me.

E atrás de mim uma imensidão de calma azul. Ondas pequeninas que se desfazem muito delicadamente na areia escura. Pedaços de coral que rebolam delicadamente na areia escura. Um mar que parece não querer incomodar.

Viro-me. Mais 30 graus apenas. E passo as pernas para o outro lado e piso a areia.

Inspiro.

Espero. Mas é um outro esperar.

E caminho até à água e deixo o mar entrar-me nos sapatos.

Expiro.

Espero. Mas é um ainda outro esperar.

E volto-me e regresso ao muro com o mar atrás das costas. Sabendo-o lá. Sentindo-o lá.

E a M chega de sorriso aberto e A. no banco de trás e eu subo sem que ninguém perceba que viajo com o mar nos pés e 90 graus de areia, iodo e coral.

de para a Gui…#3

A borboleta de asas negras entra na sala de estar.

Bate as asas como se dissesse “bom dia” e eu respondo-lhe:

– Bom dia Borboleta de Asas Negras! – e digo isto em língua de gente porque penso que quem voa para uma sala e bate as asas em jeito de bom dia é bicho por certo muito educado que deverá entender línguas.

E continuo a ler o meu livro.

Pelo canto do olho vejo que ela continua a dançar agitando as asas e mostrando umas lindas pintinhas amarelas.

– Que lindas pintinhas amarelas, Borboleta de Asas Negras! – digo-lhe em língua de gente porque penso que quem dança assim com umas asas tão lindas merece um elogio.

E continuo a ler o meu livro.

Splash! Ouço eu e levanto a cabeça e vejo o Hermenegildo de patas no ar e unhas de fora a tentar agarrar a Borboleta.

E a borboleta sobe e o Hermenegildo salta. E a borboleta desce e o Hermenegildo salta. E a borboleta volta a subir e o Hermenegildo volta a saltar. E outra vez e outra vez e outra vez. Como se fosse uma dança.

E cansado o Hermenegildo desiste e deita-se, fechando os olhos como se nada daquilo o interessasse. E a Borboleta passa ao meu lado e bate as asas como se dissesse “então adeus”.

E eu respondo em língua de gente:

– Então adeus Borboleta!

E o Hermenegildo sem abrir os olhos abana uma orelha como se dissesse:

-Pfffffff!

de para G…#2

Hoje quando vinha para casa, antes de entrar, atravessei a estrada, saltei o murinho pequenino e entrei na praia. De repente sinto uma coisa a tocar-me a perna e dou um grito. Pensei que fosse uma cobra, daquelas cobras verdes que se escondem na vegetação junto à areia, mas quando olho para baixo vejo um bicho cor de laranja. Era o Hermenegildo.

E ele disse:

-Miauuuuuuuuu! – que em língua de gato deve querer dizer “Senta-te”, porque eu sentei-me e ele pareceu gostar.

Sentada tirei os sapatos e enterrei os meus pés na areia. Dois caranguejos muito muito pequeninos fugiram assustados.

(Tu não te recordas, mas tens medo de caranguejos.)

E correram para a água e desapareceram na espuma.

(Tu não te recordas, mas tens medo da espuma.)

Mexi os dedos dos pés afastando a areia. Dobrei os joelhos para os pés não tocarem na espuma. E ouvi:

– Miauau! – que em língua de gato deve querer dizer “olha para o mar”, porque eu olhei e ele pareceu gostar.

E ao longe, muito ao longe, vejo uma mancha grande cinzenta que entra e sai da água assim ondulante. E um repuxo que se eleva… Uma baleia! Uma baleia atrasada na sua viagem anual…

E sem abrir a boca gritei, gritei assim dentro da minha cabeça:

– Não tenhas pressa! – e fechei os olhos e repeti – Não tenhas pressa Baleia!

E ela pareceu-me abrandar e por momentos deixei de a ver e franzi os olhos e o Hermenegildo estendeu o pescoço e segundos depois vimos um repuxo maior do que os outros. Assim como se fosse um adeus.

E ficámos ali… menina e gato, de pescoço esticado a seguir a baleia atrasada, até o céu ficar laranja a despedir-se do dia.

Laranja como o gato.

Triste como a menina.

de para a G… #1

Hoje conheci um gato côr-de-laranja com pernas muito muito altas e uma grande, grande cabeça. Vive nesta casa e tem imensos irmãos. Quando ele nasceu, a Tracey, que é a dona dele, decidiu chamar-lhe Gildo.

E o gatinho Gildo foi crescendo, crescendo, crescendo. O gatinho gildo não parava de crescer. As pernas ficaram compridas, as patas alargaram e o Gildo parecia decidido a ser o maior gatinho de dili.

Até que um dia a Tracey olhou para ele e pensou:

– Hum, como é que um gatinho tão grande pode ter um nome tão pequenino?

E a partir desse dia o gatinho deixou de ser Gildo e todos passaram a chamar-lhe Hermenegildo. Um nome muito mais adequado ao maior gato de Dili!

Hoje o Hermenegildo veio visitar-me ao quarto. Abriu a porta do roupeiro com a cabeça, saltou lá para dentro e observou todas as minhas roupas.

– Miau – disse ele. Parece-me que aprovou!

Saltou para o chão e passeou por cima de todos os meus sapatos.

– Miau – disse ele. Parece-me que aprovou!

Saltou para a mesa e cheirou todos os meus livros.

-Miau – disse ele. Parece-me que aprovou!

Saltou então para a minha cama e encostou a cabeça à minha perna. Com muito cuidado toquei-lhe na cabeça e fiz-lhe uma festa. Ele virou os olhos grandes para mim e depois fechou-os e começou a fazer um rom-rom profundo. Meio a dormir fez:

-Miau – muito, muito baixinho. Parece-me que aprovou…

Acho que vamos ser amigos!

de 5 de Mayo…

ca em “casa” festejamos o 5 de Mayo.

Elvira a a representante Mexicana, cozinhou…

Gracias Elvira!

Salude!!!

os resultados:

pimentos recheados com frango e queijo envoltos em claras e fritos regados com natas azedas e romas

mole!!!!

sopa!

sobremesa!

“E lo hombre  morrio con falta de que????????

Salude!!!!!!!! “

de liman korun, liman los…

À minha frente desfilam uma a uma jovens adolescentes que procuram trabalho.
Cabelos compridos. Uns mais do que outros. Presos em ganchos ou elásticos com rabos-de-cavalo longos que lhes descansam nas costas. Naturalmente brilhantes e bem cuidados, com um toque de hena ainda em planta aqui e ali. Umas mais estreitas de corpo, outras com pequeninas formas.
Uma nova geração com acesso a educação em universidades estrangeiras da região que pouco ou nada lhes ensinaram. Que regressam com esperança e que acabarão maioritariamente como interpretes.
Pela mão passam-me as cópias dos diplomas em letras pomposas, as fotos nos documentos com o casaco do fotografo e a obrigatória ausência de sorriso.
E enquanto falam eu analiso-lhes o rosto, os olhos, o nariz, as mãos que se mexem a acompanhar o discurso. Os gestos tão femininos naqueles corpos tão pequeninos.
E descubro numa um sorriso parecido ao da minha filha, e noutra os olhos, e noutra talvez o nariz e tento compor a imagem dela adolescente, assim sentada em frente a alguém que lhe definirá o futuro, cheia de esperança, cheia de sonhos.
E peço desculpa e fecho-me na casa de banho a chorar.
Convulsivamente.
Viro-me e constato que a sanita está entupida.
Um grande cócó desolado flutua castanho e resistente.
Bolas! Toda a gente vai pensar que fui eu!

de…

As duas meninas muito jovens e muito morenas, como só aqui se consegue ser, com cabelos compridos, negros e lindos como só aqui se consegue ter, sentam-se com os dois estrangeiros notoriamente Asiáticos, notoriamente ricos, notoriamente seguros e dominantes, no bar do hotel.
Elas encostam as cadeiras uma à outra em jeito de protecção. Eles sorriem e inclinam-se para a frente e falam. A mais baixa das duas, tímida, responde fazendo gestos largos e lentos com as mãos. Pede coca-cola.
Eles bebem Sumol. Sumol laranja. E eu sinto que me sujam a memória do refrigerante da infância.
Angustio-me. Olho para a minha torrada de pão de Taibessi com a manteiga preguiçosa a derreter e sinto um nó no estômago.
Os sorrisos deles continuam. A mais alta das duas brinca com o chinelo; abana-o, apanha-o com os dedos do pé quando ele está quase a cair e volta a balançá-lo.
Apanha-o e volta a balançá-lo e apanha-o e volta a balançá-lo…
Subitamente a mais baixa abre a carteira; tira um pequeno caderno e tira um lápis e tira um gravador. Organiza tudo no colo, inclina-se para a frente e começa a escrever.
Olho para a minha torrada e a manteiga sorri-me; trinco-a. Sabe-me bem.
A mais alta das duas pára de abanar o chinelo, descansa o pé no chão e encosta-se na cadeira. Ainda vigilante. Ainda a cumprir o dever de companhia.