de saudável…

quando se coloca uma criança numa escola australiana, sabe-se que para alem da total falta de maneiras se vão herdar uma serie de tradiçoes alimentares muito pouco saudáveis.

com a língua vem uma linguagem corporal de uma coolness pouco recomendada para quem queira viver alegremente neste lar- as correcções aumentaram cerca de 90% desde que a criança se escolariza no meio down under.

a par disso há uma saudavel interacção com a comunidade que se traduz num conjunto de iniciativas para angariação de fundos para isto e para aquilo, sendo isto e aquilo o projecto de pre-school dos miudos que vivem no bairro da escola, a biblioteca de uma outra escola nao sei bem onde porque não sou uma mae disponivel, e mais duas ou três actividades para salvar qualquer coisa muito importante.

esta angariação de fundos é feita com a venda de coisas e as coisas são regra geral coisas de comer. assim temos ice cups a meio da manhã mas é importante contribuir porque vai ajudar os pobres e temos queques disto e daquilo para comprar porque também vai ajudar imenso os pobres e mais isto e aquilo muito doce que também vai ajudar os pobres. no fundo, a felicidade de uma série de crianças e a economia de outras tantas depende dos níveis de consumo de açucar da minha filha. e eu lá vou aceitando porque nesta familia gosta-se muito de pobres; de tal forma que na realidade se eles nao existessem ninguem neste núcleo familiar teria emprego, o que não deixa de ser uma reprovavel ironia.

mas a verdade é que esta criança pouco habituada a doces, vê-se subitamente exposta a esta nova realidade podendo fundamentar a sua adesão à nova dieta numa acção de puro altruismo. doar directamente o dinheiro privando-a do tremendo sacrificio de comprar doces numa base diária seria boicotar um sistema caloricamente construido numa perspectiva didactica.

assim, temos agora em casa uma miuda que gosta de doces, que não é amiga da fruta e que usa adjectivos que eu desconhecia, em estrangeiro, para qualificar os broculos. porque comer vegetais não é cool! e se levas um packed lunch, nada deverá ter um tom verde caso não queiras ser um social reject.

por aqui estamos definitivamente nas tintas para o processo de aceitação social da criança no grupo com base na dieta alimentar. estamos portanto “in paints”!

apesar da criança na maioria das vezes comer na cantina da escola, a coisa não melhora. e nào melhora porque o rebento estuda num local onde a cantina se resume a duas senhoras representantes de dois restaurantes, que vão todas as manhãs munidas de um menu com fotos, recolher os pedidos para almoço de cada criança. na hora respectiva, os meninos encontram na mesa no jardim uma caixinha com o nome deles e o prato que pediram. as escolhas da minha filha alternam invariavelmente entre os pratos filipinos e os tailandeses com excepção da sexta feira, em que o senhor das pizzas também aparece por lá.

o ser nova numa escola onde não dominava a língua e tudo e todos eram estranhos, fez-nos ser permissivos e aceitar rotinas e hábitos absolutamente fora da norma de casa. Um ano depois e passado o período de adaptação, chegou o momento de recuar e reeducar os habitos e maneirismos da criança. depois do cold turkey das férias grandes (que aqui o ano escolar é mais ou menos ao contrário e começamos com as aulas a 26 de Janeiro), vem o fim de semana de negociação de menus escolares. 3 dias de almoço levado de casa alternados com 2 dias de almoço na escola. um ice cup por semana. muitos verdes e vermelhos na comida e refeições preparadas por ela própria na vespera antes de se ir deitar.

Por agora, e para recuperar o vício da fruta, recortamos com os moldes das bolachas pedaços para o pequeno almoço.

As aparas ficam para a mãe…

de aniversário…

 

 celebramos ao contrário o aniversário; ao acordar, uma massagem, dormimos à hora de almoço, tomamos o pequeno almoço à hora de jantar.

um dia de pernas para o ar, a celebrar a vida do homem que rejeita a normalidade, que abraça o absurdo, que respira criatividade, que vive de acordo com regras que escapam à sensibilidade da gente comum que se cruza com ele, que chora escondido a ver filmes, e  não sabe lidar com o quotidiano,.

Parabéns, Gonçalo!

de 1 de Janeiro….

estamos muito contentes!

mas mesmo muito muito contentes!

o novo ano começou com um frigorifico morto e uma tentativa de assalto à casa.

recebemos estes contratempos de coração aberto porque são manifestações do divino!

 Não há prova maior da existência de Deus do que vê-lo em plena acção a castigar cordeiros pecadores que iniciam o ano a rirem-se dos que o tentavam celebrar ao ar livre sendo apanhados pela chuva.

Senhor, aceitamos humildemente a lição. Agradecíamos igual aplicação ae Vossa parte na disciplina da empregada que se demitiu e ficou com a nossa chave de casa coincidindo isso com a tentativa de assalto.

Senhor, ela é Protestante.

do Novo Ano…

A noite de fim de ano foi passada em casa. Na cozinha.

Sacrificaram-se lagostas. Grandes e agressivas apesar de mortas. Nas pontas dos meus dedos ficaram marcados em memória, os piquinhos de cada uma. Morreram com dignidade.

Nesta casa faz-se extensiva pesquisa antes de preparar um prato. Aquando da confecção, todas as receitas são devidamente ignoradas.

Da cozinha gostamos dos odores que se vão libertando, do som da faca a tocar ritmicamente a madeira, dos minutos de pausa em frente à ventoinha, dos cães muito silenciosamente sentados seguindo cada movimento, da música lá ao fundo, dos foguetes dos vizinhos, das tekis quietas na parede e detestamos a louça por lavar. Ou melhor, detestamos lavá-la.

A miuda cá de casa experimentou champanhe pela primeira vez. Assim só um bocadinho. E lamentavelmente gostou. A miuda cá de casa ofereceu-se para terminar a bebida dos outros. Consta que a avó da miuda costumava em pequena, às escondidas, terminar o fundinho do copo dos convidados da casa.  Hoje em dia diz que o alcool lhe dá alergia… tecnicas para esconder um passado pouco católico!

Minutos após a meia noite, chove torrencialmente. Daquelas chuvas de gotas grossas e rápidas. E a nossa casa no cimo de Vila Verde foi como sempre das primeiras a senti-la. De volta à sala vindos do jardim inundado, ocorre-nos subitamente  que na televisão se transmite a festa organizada pelo Governo em frente ao Palácio e ligamos o aparelho na esperança de que a chuva ainda lá não tenha chegado. Esta esperança não foi motivada pela preocupação. Esta esperança foi motivada pelo desejo de termos a oportunidade de ver a chuva a chegar e as pessoas a correr a fugir, assim em directo na tv.

E Deus na sua imensa bondade, fez-nos esperar 3 a 4 minutos mas concedeu-nos essa Graça.

de Feliz Natal…

Estamos prontos!

Quer dizer, não estamos mas não pensamos muito nisso.

A ceia está “organizada” – Um Pato de Pequim inteirinho que os chineses aqui ao lado do escritório irão cozinhar para nós. Portanto, tirando isso nada mais foi feito. Mas agora basta elaborar em torno do tema principal. Este é definitivamente um Natal Chinês!

Nós todos ali em cima na foto desejamo-vos um Feliz Natal. Quer dizer, na realidade só eu é que vos desejo Feliz Natal porque nenhum dos outros 4 terá grande paciência para essas coisas. Tirando a Gui, que nos seus 9 anos em plena puberdade precoce e depois de ter pedido ajuda para depilar o “rabo das pernas” (!!!!), suspirou e informou-me que prefere oficialmente ser ainda conhecida como “a person who believes in Santa”. Admiro o pragmatismo da minha filha e admiro também a forma como recorre ao Inglês quando o tema é mais emocional!

Desejo aos dois leitores deste blog um Feliz Feliz Natal! Feliz Feliz Natal! Tenho fortes suspeitas de que este será um dos meus melhores Natais de sempre! 🙂

de fazer o Natal…

 

por muito que se sonhe com um Natal tropical, longe da chuva e do frio do Dezembro Europeu, a verdade é que vivê-lo entre a praia e o ar condicionado a 16 graus na sala, num esforço tremendo para baixar a temperatura, não é agradável.

As bolachas de gengibre sabem melhor com chá quente. Fazer biscoitos é um desprazer por causa do calor do forno. Decorar bolachas é uma impossibilidade porque tudo derreterá com  calor. Nas janelas da sala estão pateticamente penduradas as meias de Natal. Quentinhas, com bonecos de neve e temas de inverno. Chinesas. Ao lado as botas da tia Jana. Personalizadas. A um canto um pinheiro verde vivo de plastico. Chinês. Decorado com bolas todas elas muito vintage e muito plasticas. Chinesas. E curiosamente gera-se uma certa harmonia e a coisa resulta. E o Natal entra pela sala e agarramo-no a ele. Longe de tudo o que se tornou a nossa tradição. Longe das pessoas que o formam e lhe dão consistência.

E criamos assim uma atmosfera artificial a uma temperatura artificial e esforçamo-nos para que no meio da saudade e do vazio que a ausência de gente querida nos deixa, se crie um espaço que deixe memórias das que vale a pena recordar.

de equilibrio…

Encontrei num momento de tédio e internet disponivel, um blog Americano de uma mulher.

Bonita. Meia loura, meia ruiva, cabelos compridos sempre impecáveis, magra, 3 filhos, um marido que acaba de ser feito partner numa firma de advogados. Sorri da mesma forma em todas as fotos. Aquele sorriso que só as Americanas têm; muito aberto, mostrando os dentes todos, perfeito.

As crianças têm os olhos azuis. São duas meninas e um rapaz bebé que sorri em todas as fotos. Também ele muito Americano e aberto, mostrando os dentes todos, incluindo o que partiu ao cair na semana passada.

Fui saltando de post para post sem conseguir parar e sem conseguir definir se estava a gostar ou não.

Fui ao histórico.

Vi as decorações de Natal dos vários anos. A perfeiçao da combinação de cores e as instruçoes detalhadas de como o fazer. Os preços, as lojas onde encontrar os produtos. Vermelhos e verdes apenas. E branco, claro. Tudo pronto a usar.

Vi os fatos da Noite das Bruxas, as festas do bairro nas ocasiões festivas, a piscina da casa nova da mãe. A arrumação do pantry, as filas e filas de comida enlatada e congelada – porque ela nao cozinha.

O marido alto que engordou no primeiro ano de casado e que ao longo dos postais de Natal se foi vendo recuperando a forma até ficar mais musculado do que nos tempos de liceu.

A festa no escritório quando se tornou partner, a foto com o senior partner e a familia.

A Igreja Mormon que frequentam.

As sextas feiras que ela dedica a um post sobre fashion e vai-se fotogrando no espelho da casa de banho com as diferentes combinações de peças discretas acentuadas aqui e ali por um cinto.

As meninas em rosa, o quarto em branco e rosa, a procura de uma casa nova, a arrumação das gavetas, a arrumação dos armários, a arrumação, a arrumação. O exercício.

Os encontros com amigas, as conferências sobre Parenting.

As receitas de doces para as festas da escola e oferta a professores e amigos feitos à base de M&M’s e outras guloseimas de saco, empilhadas e levadas ao forno ate derreterem e se fundirem.

Mais fotos de familia,

Mais fotografos profissionais a organizarem o postal de Natal.

E numa base diária vou lá – numa espécie de voyeurismo provinciano – espreitar a vida da senhora!

Mais ou menos surpreendida com o facto de  não conseguir perceber se acho tudo aquilo tão absurdamente ridiculo, tão à letra do que deve ser a vida de uma mulher de classe média em ascensão na América, tão distante do que eu conseguiria aceitar como uma possibilidade de realidade para mim e simultaneamente tão confortável. Uma vida calendarizada,  em que os eventos se sucedem e repetem com a mesma cadência das estações do ano, em que na realidade as estações do ano fazem parte da definição do calendário.

E pergunto-me como é possivel viver assim sem acordar um dia pela manhã atacando os  proprios pulsos à dentada.

E depois percebo.

E consigo ver a felicidade da senhora. E o equilibrio da familia. E a importância do postal de Natal. E percebo que vou lá porque acho tudo aquilo enternecedor; os namorados de Liceu que controem um projecto de vida em comum, à semelhança dos pais, dando continuidade à realidade que conheceram. E percebo também que a adoptei a senhora sem que ela saiba. E que como qualquer mãe preocupada, visito-a diariamente com um receio terrivel de que toda aquela realidade tão cuidadosa e amorosamente construida, possa lá não estar no dia seguinte. Porque basta o marido não querer.

E fecho o separador sabendo que penso todas as estas coisas porque me sinto arrogantemente crescida.

E há um conforto enorme, mesclado de presunção, ao perceber que um dia acordamos e realizamos que já retirámos da vida um conjunto de experiências e informações que nos permitem rejeitar sem ter que pensar muito no assunto, uma série de sistemas e atitudes, valores e contravalores. E que por vezes nos podemos definir não necessariamente por aquilo que exarcebadamente defendemos, mas simplesmente pelo que rejeitamos.

E que viver à luz do “não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí” é uma filosofia tão legitima como outra qualquer, mas que na realidade, surpreendentement exige uma constante análise e reflexão que se faz intuitivamente.
E será essa busca que definirá o meu percurso.

A dois!